segunda-feira, 21 de novembro de 2016

RECIFE

Recife é um município brasileirocapital do estado de Pernambuco, localizado na Região Nordeste do país. Pertence à Mesorregião Metropolitana do Recife e à Microrregião do Recife. Detendo uma área territorial de aproximadamente 218 km², é formado por uma planície aluvial, tendo as suas ilhaspenínsulas e manguezais como as principais características geográficas.[3][7] A cidade é a quarta capital brasileira na hierarquia da gestão federal, após BrasíliaRio de Janeiro e São Paulo, e possui a quarta concentração urbana mais populosa do Brasil, após São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.[8][9] Recife tem, num raio de 300 km, três capitais estaduais sob sua influência direta: João Pessoa (122 km), Maceió (257 km) e Natal (286 km).[10][11]
O Grande Recife é a região metropolitana mais rica do Norte-Nordeste e a oitava mais rica do Brasil, e o município-sede possui o décimo quinto maior PIB do país e o maior PIB per capita entre as capitais nordestinas.[12][13][14] A cidade é a nona mais populosa do país, e sua região metropolitana, com mais de 3,9 milhões de habitantes, é a oitava mais populosa do Brasil, além de ser a terceira área metropolitana mais densamente habitada do país, superada apenas por São Paulo e Rio de Janeiro.[15][16] A capital pernambucana desempenha um forte papel centralizador em seu estado e região, abrigando sedes de instituições como a SUDENE, a Eletrobras Chesf, o Comando Militar do Nordeste, dentre muitas outras, e o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo.[8][17] O município é a capital nordestina com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M) segundo dados da ONU de 2010, figurando como a capital mais alfabetizada, com a menor incidência de pobreza e a com a maior renda média domiciliar mensal do Nordeste do país.[5]
A cidade do Recife foi eleita por pesquisa encomendada pela MasterCard Worldwide como uma das 65 cidades com economia mais desenvolvida dos mercados emergentes no mundo. Apenas cinco cidades brasileiras entraram na lista, tendo o Recife recebido a quarta posição, após São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e à frente de Curitiba.[18] Segundo a consultoria britânica PricewaterhouseCoopers, o Recife será uma das cem cidades mais ricas do mundo em 2020.[19][20]
Mais antiga entre as capitais estaduais brasileiras, o Recife surgiu como "Ribeira de Mar dos Arrecifes" no ano de 1537, na principal área portuária da Capitania de Pernambuco, conhecida em todo o mundo comercial da época, graças à cultura da cana-de-açúcar.[21] No século XVII, a cidade ficou vinte e quatro anos sob domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tendo como um dos administradores da colônia o conde Maurício de Nassau.[22] Após a expulsão dos neerlandeses, feita na Insurreição Pernambucana, o Recife emerge como a cidade mais importante de Pernambuco, tendo uma grande vocação comercial influenciada principalmente pelos comerciantes portugueses, os chamados "mascates".[23] Dentre as suas muitas alcunhas atribuídas, "Veneza Brasileira" é a mais conhecida. O romancista francês Albert Camus esteve no Recife em 1949 e comparou a capital pernambucana a outra cidade italiana ao descrevê-la, em seu livro Diário de Viagem, como a "Florença dos Trópicos".[24]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Arrecife é a forma antiga do vocábulo recife, ambos originários do árabe ár-raçif, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, cais, molhe. Em sua forma arcaica, “arracefe”, o vocábulo já era utilizado em 1258, segundo registra o dicionarista José Pedro Machado. Assim, o topônimo da atual cidade do Recife resulta do acidente geográfico, cuja designação é registrada pela primeira vez no Diário de Pero Lopes de Souza, que denominou o seu porto natural de “Barra dos Arrecifes” (1532), e no chamado Foral de Olinda (1537), no qual o primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, nomeia-o “ribeiro do mar dos Arrecifes dos Navios”.[25] No mapa do cartógrafo João Teixeira Albernaz (1618) o local encontra-se registrado como “Lugar do Recife”, menção certa aos primórdios da antiga povoação, depois chamada Vila de Santo Antônio do Recife (1709) e, finalmente, cidade do Recife (1823).[26]
Geralmente, o nome do município dentro de frases é antecedido de artigo masculino, como acontece com os municípios do Rio de Janeiro, do Crato, do Cabo de Santo Agostinho e outros. A esse respeito, muitos intelectuais recifenses e pernambucanos já se pronunciaram, entre eles Gilberto Freyre, em seu livro "O Recife, sim! Recife, não!", em 1960.[27][28] Por outro lado, o gramático Napoleão Mendes de Almeida afirma, em longo arrazoado, que não se deve usar o artigo definido para fazer referência à cidade, mas apenas ao bairro homônimo: "o bairro do Recife na cidade de Recife".[29]

História[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: História do Recife

Primeiros povos e colonização portuguesa[editar | editar código-fonte]


Olinda foi o local mais rico do Brasil Colônia da sua criação até a Invasão Holandesa, quando foi devastada. O Recife sobrepôs então a vila que o originou.[30] Na foto, Olinda e Recife.
Por volta do ano 1000, os índios tapuias que ocupavam a região da atual cidade do Recife foram expulsos para o interior do continente por povos tupis procedentes da Amazônia.[31]
Quando os portugueses chegaram à região, no século XVI, ela era ocupada pelo povo tupi dos caetés.[32] O atual município do Recife tem sua origem intimamente ligada ao município de Olinda. No foral (carta de direitos feudais) de Olinda, concedido por Duarte Coelho em 1537, há uma referência ao "Arrecife dos navios", um lugarejo habitado por mareantes e pescadores.[33] O Recife permaneceu português até a independência do Brasil, com a exceção de um período de ocupação holandesa entre 1630 e 1654.[30]
Durante os anos anteriores à invasão da Companhia das Índias Ocidentais, o povoado do Recife existiu apenas em função do porto e à sombra da sede Olinda, local que a aristocracia escolheu para residir devido à sua localização elevada, que facilitava a defesa. Ergueram-se fortificações e paliçadas em defesa do povoado e do porto do Recife, todas elas voltadas para o mar. Os temores voltavam-se para o oceano por conta dos constantes ataques ao litoral da América Portuguesa pela navegação de corso e pirataria, uma vez que Pernambuco era o centro da economia colonial.[30]

Captura do Recife (1595)[editar | editar código-fonte]

A "Captura do Recife", também conhecida como "Expedição Pernambucana de Lancaster", foi um episódio da Guerra Anglo-Espanhola ocorrido em 1595 no porto do Recife, em Pernambuco, Brasil Colônia. Liderada pelo almirante inglês James Lancaster, foi a única expedição de corso da Inglaterra que teve como objetivo principal o Brasil, e representou o mais rico butim da história da navegação de corso do período elisabetano.[34]

O célebre corsário inglês James Lancaster arrebatou no Recife, com o auxílio de holandeses, o mais rico butim da história da navegação de corso da Inglaterra elisabetana, durante a Guerra Anglo-Espanhola.[34]
União Ibérica, união dinástica entre as monarquias de Portugal e da Espanha, colocou o Brasil em conflito com potências europeias que eram amigas de Portugal mas inimigas da Espanha, como a Inglaterra e a Holanda. A Capitania de Pernambuco, mais rica de todas as possessões portuguesas, se tornou então um alvo cobiçado.[34]
Poucos anos após derrotarem a Invencível Armada espanhola, em 1588, os ingleses tiveram acesso a manuscritos portugueses e espanhóis que detalhavam a costa do Brasil. Um deles, de autoria do mercador português Lopes Vaz, veio a ser publicado em inglês e enfatizava as qualidades da rica vila de Olinda ao dizer que "Pernambuco é a mais importante cidade de toda aquela costa". A opulência pernambucana impressionara o padre Fernão Cardim, que surpreendeu-se com "as fazendas maiores e mais ricas que as da Bahia, os banquetes de extraordinárias iguarias, os leitos de damasco carmesim, franjados de ouro e as ricas colchas da Índia", e resumiu suas impressões numa frase antológica: "Enfim, em Pernambuco acha-se mais vaidade que em Lisboa". Logo a capitania seria vista pelos ingleses como um "macio e suculento" pedaço do Império de Filipe II.[34]
A expedição de James Lancaster saiu de Blackwall, na Grande Londres, em outubro de 1594, e navegou através do Atlântico capturando numerosos navios antes de atingir Pernambuco. Ao chegar, Lancaster tomou o porto do Recife e nele permaneceu por quase um mês, derrotando uma série de contra-ataques portugueses antes de sair. O montante de açúcarpau-brasilalgodão e mercadorias de alto preço saqueado foi robusto, obrigando-o a fretar navios holandeses e franceses que lá estavam para levar as mercadorias para a Inglaterra. Dos navios que partiram do Recife, apenas uma pequena nau não chegou ao seu destino. O lucro dos investidores, entre eles Thomas Cordell, então prefeito de Londres, e o vereador da cidade de Londres John Watts, foi assombroso, estimado em mais de 51 mil libras esterlinas. Do total, 6.100 libras ficaram com Lancaster e 3.050 foram para a Rainha. Com tal desfecho, a expedição foi considerada um absoluto sucesso militar e financeiro.[34]
Após a visita de Lancaster, a Capitania de Pernambuco organizou duas companhias armadas para a defesa da região, cada uma delas com 220 mosqueteiros e arcabuzeiros, uma sediada em Olinda e outra no Recife. Anos mais tarde, até meados de 1626, o então governador Matias de Albuquerque procurou estabelecer posições fortificadas no porto do Recife a fim de que se pudesse dissuadir a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais da ideia empreendida na Bahia em 1624.[34][35]

Invasão holandesa (1630-1654)[editar | editar código-fonte]

Vista da Cidade Maurícia em 1645.
Recife foi a mais cosmopolita cidade da América durante o governo de Maurício de Nassau.[36] Na gravura a antiga sede da Nova Holanda, o Palácio de Friburgo, demolida no século XVIII.[37]
Kahal Zur Israel, primeira sinagogado continente americano, está situada na Rua do Bom Jesus (foto), no Recife Antigo.[38]
Em 1630, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais invade a Capitania de Pernambuco, então a mais rica capitania do Brasil Colônia e maior produtora de açúcar do mundo.[39][40] No Recife, foi iniciada a construção de Mauritsstad (Cidade Maurícia, ou Mauriceia), a capital do Brasil Holandês durante 24 anos, que foi governada de 1637 a 1644 pelo conde alemão (a serviço da coroa holandesa) Maurício de Nassau. O império holandês na América era composto na época por uma cadeia de fortalezas que iam do Ceará à embocadura do rio São Francisco, ao sul de Alagoas. Os holandeses também possuíam uma série de feitorias na Costa da Mina e em Angola, situadas no outro lado do Atlântico, o que lhes dava controle sobre o açúcar e o tráfico negreiro, administradas pela Companhia das Índias Ocidentais.[41][42]
O conde desembarcou na Nieuw Holland, a Nova Holanda, em 1637, acompanhado por uma equipe de arquitetos e engenheiros. Nesse ponto, começa a construção de Mauritsstad, que foi dotada de pontesdiques e canais para vencer as condições geográficas locais. O arquiteto Pieter Post foi o responsável pelo traçado da nova cidade e de edifícios como o Palácio de Friburgo, sede do poder de Nassau na Nova Holanda, que tinha um observatório astronômico — o primeiro do Hemisfério Sul —, e abrigou o primeiro farol e o primeiro jardim zoobotânico do continente americano.[43][37][44]
Maurício de Nassau realizou uma política de tolerância religiosa frente aos católicos e calvinistas. Além disso, permitiu a migração de judeus ao Recife e a criação de uma sinagoga, a Kahal Zur Israel, inaugurada em 1642 e considerada o primeiro templo judaico da América.[38] Nassau era também um entusiasta da ciência e das belas-artes. Ao embarcar para o Brasil, trouxe uma plêiade de naturalistas e pintores para retratar e estudar a novo continente. Entre estes, merecem destaque os pintores Frans Post e Albert Eckhout, que retrataram as paisagens e os habitantes locais; e o médico Willem Piso e o naturalista Georg Marggraf, que estudaram a fauna e a flora, a farmacopeialocal e as doenças tropicais.[45] Durante o seu governo, Recife foi a mais cosmopolita cidade de toda a América.[36] Ele retornou à Holanda em 1644, demitido devido a desentendimentos com as autoridades da Companhia, que não se contentaram com o nível de lucros das possessões brasileiras.[46]
Durante a ocupação holandesa foram cunhadas, no Recife, as primeiras moedas em solo brasileiro: os florins (ouro) e os soldos (prata), que continham a palavra Brasil.[47]

Insurreição Pernambucana (1645-1654)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Insurreição Pernambucana
Os novos governantes holandeses, que vieram depois da Nassau, entraram em conflito com a população local. Descontentes com a situação, 18 líderes insurretos pernambucanos assinaram compromisso para lutar contra o domínio holandês na capitania, depois de uma reunião no Engenho de São João, em 15 de maio de 1645. Com o acordo assinado, foi iniciado o contra-ataque à invasão holandesa, que durava mais de dez anos naquela altura. A primeira vitória importante dos insurgentes aconteceu no Monte das Tabocas (hoje localizado no município de Vitória de Santo Antão), onde 1.200 insurretos mazombos armados de armas de fogo, foices, paus e flechas derrotaram numa emboscada 1.900 holandeses bem armados e bem treinados. O sucesso deu ao líder do movimento, Antônio Dias Cardoso, o apelido de Mestre das Emboscadas.[48]

As Batalhas dos Guararapes, episódios decisivos na Insurreição Pernambucana, são consideradas a origem do Exército Brasileiro.
Os holandeses que sobreviveram seguiram para Casa Forte, sendo novamente derrotados pela aliança dos mazombos, índios nativos e escravos negros. Recuaram novamente para as fortificações em Cabo de Santo Agostinho, Pontal de Nazaré, SirinhaémRio FormosoPorto Calvo e Forte Maurício, sendo sucessivamente derrotados pelos insurretos.[48]
Com a chegada gradativa de reforços portugueses, os holandeses por fim foram expulsos em 1654, na segunda Batalha dos Guararapes. A data da primeira das Batalhas dos Guararapes é considerada a origem do Exército Brasileiro.[49]
Tomada a colônia holandesa, os judeus receberam um prazo de três meses para partir ou se converter ao catolicismo. Com medo da fogueira da Inquisição, quase todos venderam o que tinham e deixaram o Recife em 16 navios. Parte da comunidade judaica expulsa de Pernambuco fugiu para Amsterdã, e outra parte se estabeleceu em Nova Iorque. Através deste último grupo a ilha de Manhattan, atual centro financeiro dos Estados Unidos, conheceu grande desenvolvimento econômico; e descendentes de judeus egressos do Recife tiveram participação ativa na história estadunidense: Gershom Mendes Seixas, aliado de George Washington na Guerra da Independência dos Estados Unidos; seu filho Benjamin Mendes Seixas, fundador da Bolsa de Valores de Nova IorqueBenjamin Cardozo, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos ligado a Franklin Delano Roosevelt; entre outros. A economia açucareira local passou então a enfrentar a competição das Antilhas Holandesas, para onde os holandeses levaram a tecnologia da produção de açúcar.[50][51][52]
Devido à Primeira Guerra Anglo-Neerlandesa, a República Holandesa não conseguiu auxiliar os holandeses em território brasileiro. Com o fim da guerra contra os ingleses, a Holanda exige a devolução da colônia em maio de 1654. Sob ameaça de uma nova invasão do Nordeste brasileiro, Portugal firma acordo com os holandeses e os indeniza com 4 milhões de cruzados e duas colônias: o Ceilão (atual Sri Lanka) e as ilhas Molucas (parte da atual Indonésia). Em 6 de agosto de 1661, a Holanda cede formalmente a região ao Império Português através da Paz de Haia.[48][53]

Movimentos nativistas e separatistas[editar | editar código-fonte]


Revolução Pernambucana, único movimento separatista colonial que ultrapassou a fase conspiratória.[54]
Conjuração de "Nosso Pai" (1666)
Em 1666 a Capitania de Pernambuco lutava por reconstruir suas duas principais cidades - Recife e Olinda - destruídas com as lutas contra os invasores holandeses. Os senhores de engenho, radicados em Olinda e com reservas quanto ao porto do Recife, acreditavam merecer maiores reconhecimentos da Coroa Portuguesa, pelo contributo na expulsão dos neerlandeses. Portugal, entretanto, mandou para governar a Capitania Jerônimo de Mendonça Furtado, um estranho, contrariando assim os interesses de muitos pernambucanos, que se julgavam merecedores de ocupar a função, e não um estrangeiro. O estopim do movimento, que culminou com a prisão e deposição do governador, foi a estada, no porto do Recife, de uma esquadra francesa, que por ordem da Corte, foram bem tratados. Os insurgentes fizeram divulgar a notícia de que o governador estaria a serviço dos estrangeiros, que preparavam um ataque à província, e seu consequente saque.[55]

Frei Caneca, que esteve implicado na Revolução Pernambucana, foi líder e mártir da Confederação do Equador.
Guerra dos Mascates (1710-1711)
Após a invasão holandesa, muitos comerciantes vindos de Portugal - chamados pejorativamente de "mascates" - estabelecem-se no Recife, trazendo prosperidade à vila. O desenvolvimento do Recife foi visto com desconfiança pelos olindenses, em grande parte formada por senhores de engenho em dificuldades econômicas. O conflito de interesses políticos e econômicos entre a nobreza açucareira pernambucana e os novos burgueses deu origem à Guerra dos Mascates, entre os anos de 1710 e 1711, durante a qual o Recife foi palco de combates e cercos.[56][57][58] A Guerra dos Mascates é considerada como um movimento nativista, precursor da Independência do Brasil, pela historiografia em história do Brasil.[59]
Revolução Pernambucana (1817)
Em 6 de março de 1817 eclodiu no Recife a chamada Revolução Pernambucana, também conhecida como "Revolução dos Padres". Dentre as suas causas, destacam-se a influência das ideias Iluministas propagadas pelas sociedades maçônicas (sociedades secretas), a crise econômica regional, o absolutismo monárquico português e os enormes gastos da Família Real e seu séquito recém-chegados ao Brasil — o Governo de Pernambuco era obrigado a enviar para o Rio de Janeiro grandes somas de dinheiro para custear salários, comidas, roupas e festas da Corte, o que ocasionava o atraso no pagamento dos soldados, gerando grande descontentamento do povo brasileiro. No regimento de artilharia, o capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, reagiu à voz de prisão e matou a golpes de espada o comandante Barbosa de Castro. Depois, na companhia de outros militares rebelados, tomou o quartel e ergueu trincheiras nas ruas vizinhas para impedir o avanço das tropas monarquistas. O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro refugiou-se no Forte do Brum, mas, cercado, acabou se rendendo. O movimento foi liderado por Domingos José Martins, com o apoio de Antônio Carlos de Andrada e Silva e de Frei Caneca. Tendo conseguido dominar o Governo Provincial, se apossaram do tesouro da província, instalaram um governo provisório e proclamaram a República. A repercussão da Revolução Pernambucana contribuiu para facilitar o processo de emancipação de Alagoas, que logrou obter autonomia pelo Decreto de 16 de setembro de 1817. O desmembramento da Comarca de Alagoas da jurisdição de Pernambuco foi sancionado por D. João VI.[60][61]

Exército do Império do Brasil ataca as forças confederadas no Recife, em 1824, no contexto da Confederação do Equador.
Confederação do Equador (1824)
Em 1824, a Confederação do Equador, um movimento revolucionário, de caráter emancipacionista (ou autonomista) e republicano, surgiu em Pernambuco e representou a principal reação contra a tendência absolutista e a política centralizadora do governo de D. Pedro I (1822-1831), esboçada na Carta Outorgada de 1824, a primeira Constituição do país. Pernambuco esperava que a primeira Constituição do Império seria do tipo federalista, e daria autonomia para as províncias resolverem suas questões. Como punição a Pernambuco, D. Pedro I determinou, através de decreto de 7 de julho de 1825, o desligamento do extenso território da Comarca do Rio São Francisco (atual Oeste Baiano), passando-o, inicialmente, para Minas Gerais e, depois, para a Bahia.[62]
Revolução Praieira (1848-1850)
Em 1848, a chamada "Revolução Praieira", um movimento de caráter liberal e separatista, surgiu durante o Segundo Reinado, em Pernambuco. A última das revoltas provinciais está ligada às lutas político-partidárias que marcaram o Período Regencial e o início do Segundo Reinado. A monarquia brasileira era duramente contestada pelas novas ideias liberais da época. Para além do descontentamento com o governo imperial, grande parte da população pernambucana mostrava-se insatisfeita com a concentração fundiária e do poder político na província, a mais importante do Nordeste. Foi nesse contexto que surgiu o Partido da Praia, criado para opor-se ao Partido Liberal e ao Partido Conservador, ambos dominados por duas famílias poderosas que viviam fazendo acordos políticos entre si. Houve uma série de disputas pelo poder, até que, em 7 de novembro de 1848, iniciou-se a luta armada. Em Olinda, os líderes praieiros lançaram o “Manifesto ao Mundo”, e, no Recife, iniciaram os ataques contra as tropas do governo imperial, que interveio e pôs fim à maior insurreição ocorrida no Segundo Reinado. A derrota do movimento representou uma demonstração de força do governo de D. Pedro II (1840-1889).[63]
Panorama do Recife em 1855, por Friedrich Hagedorn.

Início do século XX até os dias atuais[editar | editar código-fonte]


Na década de 1970 Recife era ainda a terceira maior metrópole do Brasil, e foi um dos principais centros de atuação da Ditadura Militar.[64][65]Na foto o Monumento Tortura Nunca Mais.
No início do século XX, o Recife era ainda uma cidade muito influente: só perdia em importância político-econômica para o Rio de Janeiro.[66] Nos anos 1910, o Recife pretendia se tornar uma cidade moderna, tal como Paris, através da reforma do porto e construção de largas avenidas, sem preocupação com a preservação dos edifícios históricos, muitos dos quais completamente demolidos. Como em todo o Brasil, o modernismo não afetou as graves diferenças sociais. Iniciou-se então um período de agitação cultural, e a Belle Époque mostrou a busca de novas linguagens para traduzir as velozes mudanças trazidas pelas novas técnicas. Os recifenses tinham até os meados do século uma forte influência cultural francesa.[67]
Em 1934, Pernambuco assumiu posição inovadora ao contratar Burle Marx e o arquiteto Luiz Nunes. O bairro de Boa Viagem tornou-se um local onde a elite recifense possuía casas de veraneio já no início do século.[68]
Na década de 1950, o Recife ganhou seu contorno urbano atual, com o crescimento populacional ocasionado pela migração de pessoas do interior nordestino e a extinção dos mocambos, obrigando a população pobre a viver nos morros. A cidade já buscava mostrar uma perspectiva positiva de si, escondendo as mazelas sociais.[69]
Em 1966, houve um atentado terrorista cujo alvo era o ditador militar e então presidente da RepúblicaArthur da Costa e Silva, enquanto desembarcava no Aeroporto dos Guararapes. Houve mortos e feridos, mas o presidente escapou, chegando ao Recife de carro a partir de João Pessoa.[70] Um dos principais centros de atuação do Regime Militar no país, foi na metrópole pernambucana que se iniciou, em 1983, o movimento "Diretas Já", que se expandiu por todo o país e foi responsável por apressar o fim da ditadura no Brasil.[65][71]
Em 2009, o Cindacta III, sediado no Recife, coordenou a busca pelos destroços do voo Air France 447, considerado o pior acidente aéreo da história da aviação brasileira.[72]
Panorama do bairro de Santo Antônio em dezembro de 2014.

Geografia[editar | editar código-fonte]

Pontes centenárias sobre o trecho de confluência dos rios Capibaribe e Beberibe. No centro da foto a Praça da República na Ilha de Antônio Vaz.
Praia do Pina, também conhecida como Praia do Sport, Zona Sul.
Pontes sobre a Bacia do Pina, que ligam a Zona Sul ao Centro e Zona Norte do Recife.
O Recife é a capital do sétimo estado mais populoso do Brasil, Pernambuco, situando-se próximo ao paralelo 8º04'03'' sul e do meridiano 34º55'00'' oeste. Ocupa uma área de 218,435 quilômetros quadrados,[3] e se limita com os municípios de Jaboatão dos GuararapesSão Lourenço da MataCamaragibePaulista e Olinda.[73] Sede da Região Metropolitana do Recife (RMR), a capital pernambucana possui a quarta maior rede urbana do Brasil em população, com área de influência direta que abrange os estados de AlagoasParaíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte (este último junto com Fortaleza), avançando ainda sobre o norte da Bahia (junto com Salvador).[74]

Geologia e relevo[editar | editar código-fonte]

A cidade do Recife está situada sobre uma planície aluvional (fluviomarinha), constituída por ilhaspenínsulas, alagados e manguezais envolvidos por cinco rios: BeberibeCapibaribeTejipió e braços do Jaboatão e do Pirapama, conferindo-lhe características peculiares. Essa planície é circundada por colinas em arco que se estendem do norte ao sul, de Olinda até Jaboatão.[75]
A altitude média em relação ao nível do mar é de quatro metros, porém há algumas áreas do município que se localizam até dois metros abaixo do nível do mar, segundo o estudioso Fernando Bruce. O município se localiza na latitude de 8º 04' 03'' S e longitude de 34º 55' 00''.[76]
Os limites da cidade são: ao sul, morros com altitudes variadas, a exemplo do Morro dos Guararapes, que se prolongam desde Jaboatão dos Guararapes até Olinda; a leste, o litoral, que é guarnecido por extensos cordões de arenito (arrecifes); e a oeste, os municípios de Camaragibe e São Lourenço da Mata.[75]

Hidrografia[editar | editar código-fonte]

O Recife é conhecido como "Veneza Brasileira" graças à semelhança fluvial com a cidade europeia de Veneza. Cercado por rios e cortado por pontes, é cheio de ilhas e mangues. Na cidade acontece o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe que deságuam no Oceano Atlântico. O município conta com dezenas de pontes, entre elas a mais antiga da América Latina, a Ponte Maurício de Nassau.[77]
Na vasta rede de rios e canais da metrópole pernambucana se destacam as bacias dos rios CapibaribeBeberibeTejipió e um sistema de drenagem composto por uma série de cursos d’água secundários ou canais, afluentes ou interligados à drenagem principal. Sua malha hídrica é composta por cursos d’água como os rios Moxotó, Jangadinha, Jiquiá e Jordão, além de diversos canais, e recebe ainda a contribuição do rio Capibaribe pelo seu "braço morto", e também de corpos d’água de expressão em áreas como a Lagoa do Araçá, o Açude da Várzea e o Açude Jangadinha.[78]

Clima[editar | editar código-fonte]

O Recife tem um clima tropical úmido (tipo As' na classificação climática de Köppen-Geiger), típico do litoral leste nordestino, com temperaturas médias mensais sempre superiores a 18 °C, baixas amplitudes térmicas e precipitações abundantes ao longo do ano.[79] A temperatura média anual é de 25,5 °C,[80] chegando a 30 °C no verão. Tendo em conta o grande número de arranha-céus no Recife, a formação de ilhas de calor é comum, o que contribui para uma diferença de temperatura entre diferentes regiões da cidade. Segundo uma pesquisa da UFPE, em uma mesma ilha de calor no Recife a temperatura pode variar em até 13 °C,[81] sendo que o bairro mais afetado por este fenômeno é Boa Viagem.[82]
Maiores acumulados de precipitação em 24 horas registrados
no Recife (Curado, INMET) por meses (03/1961-presente)[83]
MêsAcumuladoDataMêsAcumuladoData
Janeiro117 mm07/01/2000Julho176,4 mm29/07/1990
Fevereiro123,1 mm16/02/1983Agosto335,8 mm11/08/1970
Março145,7 mm19/03/2003Setembro108,9 mm17/09/2000
Abril165,3 mm22/04/1973Outubro86,8 mm14/10/1976
Maio235 mm24/05/1986Novembro48,2 mm24/11/1980
Junho176,4 mm12/06/1965Dezembro141,1 mm06/12/2005
O tempo médio de insolação é de 2 550 horas/ano,[84] com umidade relativa do ar de 80%.[85] O índice pluviométrico é superior a 2 000 milímetros (mm) anuais, concentrados entre abril e julho (médias mensais superiores a 300 mm), sendo julho o mês de maior precipitação (388 mm).[86] As precipitações acontecem sob a forma de chuvas, que podem vir acompanhadas de raios e trovoadas e serem de forte intensidade,[87] muitas vezes ocasionando em alagamentos.[88] A maior enchente da história do Recife foi registrada em julho de 1975.[89] Nevoeiros são mais comuns nos meses mais úmidos, sendo que um dos mais densos deles ocorreu no dia 30 de outubro de 1998, quando a cidade amanheceu cinzenta devido a uma inversão térmica.[90] Embora bastante raras, chegadas de frentes frias também podem acontecer.[91] Ventanias também são pouco comuns, sendo que uma das mais fortes aconteceu em 18 de fevereiro de 2010, quando uma rajada de 86 km/h destelhou casas.[92]
Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), desde 1961 a menor temperatura registrada na capital pernambucana (estação meteorológica de Curado) foi de 15 °C nos dias 2 de setembro de 1965 e 4 de agosto de 1999,[93] e a maior atingiu 35,1 °C em 21 de março de 1988.[94] O maior acumulado de precipitação em 24 horas foi de 335,8 mm em 11 de agosto de 1970. Alguns outros grandes acumulados foram 235 mm em 24 de maio de 1986, 185,9 mm em 1º de agosto de 2000, 176,4 mm em 29 de julho de 1990 e 12 de junho de 1965, 165,3 mm em 22 de abril de 1973, 162,8 mm em 29 de junho de 1990, 162 mm em 21 de julho de 1973, 159,7 mm em 10 de junho de 1980 e 154,2 mm em 8 de abril de 1986.[83] O mês de maior precipitação foi abril de 1973, quando foram registrados 770,4 mm.[95] O menor índice de umidade do ar foi registrado em 17 de janeiro de 1998, de 41%.[96]
[Esconder]Dados climatológicos para Recife (Curado)
MêsJanFevMarAbrMaiJunJulAgoSetOutNovDezAno
Temperatura máxima absoluta (°C)34,734,335,133,53331,933,132,232,733,132,434,535,1
Temperatura máxima média (°C)30,230,23029,728,927,927,327,528,12930,130,229,1
Temperatura média (°C)26,526,526,425,925,224,523,923,924,625,526,126,425,5
Temperatura mínima média (°C)22,422,622,722,621,921,621,120,620,721,421,922,221,8
Temperatura mínima absoluta (°C)16,817,817,917,116,917,11615151616,716,415
Precipitação (mm)108,2148,2256,9337,6318,5377,9388,1204,81226335,756,82 417,6
Dias com precipitação (≥ 1 mm)101116182021221713968171
Umidade relativa (%)73778084858585857876747579,8
Horas de sol246,3210,8203,9185,2186,3168,3157,6207,1216,6247,3265,8255,22 550,7
Fonte: Instituto Nacional de Meteorologia (normal climatológica de 1961-1990;[80][97][98][86][99][84][85] recordes de temperatura: 03/1961-presente).[93][94]

Parques[editar | editar código-fonte]

Praça de Casa Forte, na Zona Norte, foi o primeiro jardim público concebido por Burle Marx e um dos sete jardins de autoria do paisagista tombados pelo IPHAN no Recife.[100]
Parque dos Manguezais, maior manguezal urbano da América, situado na Zona Sul. A cidade do Recife foi erguida sobre uma planície estuarina.[101][102]
Parque 13 de Maio, no bairro da Boa Vista, Centro.
O Recife possui algumas áreas de Mata Atlântica no seu território:[103]
Parque Dois Irmãos é o maior parque do município. Além de parque, é horto, jardim botânicozoológico e reserva ambiental. Como um parque, Dois Irmãos oferece uma variedade de diversões e lazer para adultos e crianças incentivando o interesse em conservação do ambiente. De seus 384,42 hectares, 350,10 são de reserva ambiental. O parque e a reserva são separados por arames, e os animais da reserva não podem ser mantidos em cativeiro pelo zoológico.[104]
Mata do Engenho Uchôa,[105][106] na Zona Sul, refúgio de vida silvestre de 20 hectares, no nível estadual, e Área de Proteção Ambiental de 192 hectares, no municipal, situada na cidade do Recife, protegida por lei pelo Estado de Pernambuco. Dos 192 hectares, 60 são de manguezal, que pertencem à União. É considerada a mais abrangente unidade de conservação do Recife. Decretada de utilidade pública em 2002, a área da Mata do Engenho Uchoa nunca foi desapropriada porque os proprietários contestaram o valor da indenização.[107] É a única área em Pernambuco que possui os três biomasmanguerestinga e Mata Atlântica.[108]
Parque da Jaqueira, localizado no bairro homônimo, área nobre e residencial do Recife, foi inaugurado em 1985, e reúne dois espaços distintos: o do sítio histórico, onde se localiza a Capela de Nossa Senhora da Conceição (Capelinha da Jaqueira), e a parte destinada à prática de esportes, às atividades culturais e contemplativas. A capela foi tombada e restaurada na década de 1970, sendo emoldurada por um jardim de Burle Marx. O parque possui pistas de cooper (1.000 m), patinação (600 m) e bicicross (400 m), ciclovia (1.100 m) e instalações de apoio aos usuários.[109]
Parque 13 de Maio, localizado entre as ruas da Saudade, João Lira, Princesa Isabel e do Hospício, na Boa Vista, possui pista de cooper, pequeno zoológico, parque infantil e vários monumentos. Em seu entorno estão alguns prédios centenários, como o da Faculdade de Direito do Recife (a primeira do país) e a sede da Câmara de Vereadores. Teve sua construção iniciada em 1892, na gestão do governador Alexandre José Barbosa Lima. Em 1939, foi transformado em parque pelo então prefeito Antônio Novaes Filho.[110]
Parque das Esculturas Francisco Brennand, situado no molhe do bairro do Recife, de frente à Praça do Marco Zero, foi inaugurado em dezembro de 2000. O espaço foi criado em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil, em realização ao projeto da prefeitura do Recife "Eu vi o Mundo... Ele começava no Recife". O museu ao ar livre abriga 90 obras que retratam mistérios do artista plástico pernambucano Francisco Brennand. No local, podem-se observar diversos monumentos de cerâmica, como as sereias, e várias esculturas em bronze, como os pelicanos. O destaque do ambiente é a "Torre de Cristal", construída com 32 metros de altura, composta por argila e bronze.[111]
Além disso, várias áreas do município são de manguezal. As principais encontram-se próximas ao rio Capibaribe, na Zona Sul e na fronteira com Olinda. Com 215 hectares de área, o Parque dos Manguezais, pertencente à Marinha do Brasil, está situado entre os bairros do Pina, Boa Viagem e Imbiribeira, e é banhado pelos rios Jordão e Pina. Trata-se da maior reserva de mangue em área urbana da América e uma das maiores do mundo, da qual fazem parte a Ilha de Deus, a Ilha de São Simão e a Ilha das Cabras.[101] Outros parques muito frequentados são o Jardim Botânico do Recife, o Parque Santana, o Sítio Trindade e o Parque Dona Lindu.[103]

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