A vida do maior líder militar da Antiguidade revela as investidas de um conquistador nato, temperamental e inquieto mesmo fora dos campos de batalha
Celso Miranda e Ernani Fagundes | 01/02/2011 12h42
Nos últimos anos, as produções de Hollywood têm mostrado, como nunca, a vida íntima de personagens históricos. E sem muito compromisso com a verdade. Mas, antes de jogar pedra na liberdade criativa dos cineastas, vale lembrar que antes deles, por exemplo, pintores criaram a imagem de Alexandre III, o Grande, como um cara bonitão, sarado e inspirador. Quem assiste a Alexandre (Oliver Stone, 2004) é tão inocente quanto os apreciadores dos artistas do século 17, que o mostram em haréns ou promovendo bacanais. Numa recente polêmica sobre a presença de gays no Exército brasileiro, um ex-sargento desavisado, certamente influenciado pelo cinema, garantiu que o soberano era homossexual. Onde estará a verdade? Onde investigar para conhecer melhor a vida privada de Alexandre e sua personalidade? A forma mais segura é mirar os textos que compilaram os originais do grego para o latim, como fizeram os historiadores romanos, ou os fragmentos gregos escritos por fontes diretas que conviveram com o rei (isso não garante a verdade absoluta, claro, mas reduz o risco de bobagens) e procurar evidências que comprovem ou desmintam o que lhe é atribuído. É o monarca que surge daí que você conhece a seguir.
Alexandre sempre foi retratado por historiadores gregos e romanos como um homem cortês e respeitoso com as mulheres. Até os 20 anos, porém, não parecia preocupado com descobertas amorosas. Sua vida era controlada pela mãe, Olímpia, que vigiava sua educação e saúde. "Como qualquer mãe, a rainha anotava a altura e o peso do príncipe e acompanhava seu crescimento", diz Victor Davis Hanson, da Universidade de Chicago. Alguns autores concluem por isso que o rapaz era pequeno para a idade, ou Olímpia, superprotetora. Aos 13 anos, ele foi entregue ao pai, o rei Felipe II, da Macedônia, que determinou sua rigorosa educação militar. "Alexandre teve ainda lições de matemática, retórica e filosofia com Aristóteles", afirma Hanson. O tutor foi influência decisiva na formação do soberano, mas eles podiam ter visões de mundo distintas. Até sobre as mulheres (leia à pág. 31). O historiador romano Diodoro Sículo, que viveu no século 1 a.C. (200 anos depois da morte de Alexandre, em 323 a.C.) diz que, após o assassinato de Felipe, em 336 a.C., o jovem rei foi aconselhado pelos generais de seu pai, Antípatro e Parmênio, a se casar e a produzir um herdeiro aos 20 anos. Ele, que iria partir para o Oriente numa campanha militar histórica contra os persas, preferiu continuar solteiro: "Seria uma vergonha, apontou, depois de citar que tinha sido nomeado pela Grécia para comandar a guerra e herdado forças invencíveis de seu pai, ficar em casa comemorando um casamento e aguardando o nascimento de uma criança", escreveu Diodoro.
No entanto, o moço não era alheio ao charme feminino. Plutarco, escritor grego do século 1, relata que, após a destruição de Tebas, Alexandre deixou que uma mulher, Timocleia, partisse da cidade só porque, com o perdão do trocadilho, não tinha nada de mocreia: "Vendo-lhe o rosto, o porte e o andar, a princípio julgou que era uma dama de honra, enquanto ela caminhava com segurança (...) Maravilhado, mandou que a deixassem ir em liberdade para onde quisesse".
Ao pé da letra, os textos históricos garantem: a primeira mulher que Alexandre conheceu in natura foi a bela Barsena, viúva de seu inimigo Mêmnon, comandante das tropas mercenárias gregas e persas na batalha do rio Granico. Ela foi apresentada após a captura do tesouro real persa de Dario III, em Damasco. Segundo Plutarco, ela "era sábia em literatura grega, doce e graciosa (...). Alexandre conheceu-a por sugestão de Parmênio, conforme escreve Aristóbulo, que lhe solicitou travasse relações com tão bela e nobre dama". Na narrativa de Aristóbulo (contemporâneo de Alexandre), a insistência do general Parmênio em conseguir uma mulher para seu rei faz supor que ela inicia o rapaz no amor, aos 23 anos, em 333 a.C.
Depois ele não parou mais e até foi seduzido pelos pedidos femininos. A amante de seu amigo e general Ptolomeu, a africana Taís, lhe dirigiu gracejos no palácio de Persepólis durante uma bacanal (a festa de Baco, o deus do vinho) - "Um festim de músicas a que até as concubinas de seus amigos compareceram" - e ele, embriagado, atendeu, mandando botar fogo na cidade para depois arrepender-se da destruição (leia às págs. 32 e 33). Mas o auge de seu encantamento pelas mulheres acontece após a morte de Dario. Sem a preocupação de enfrentar um grande oponente no campo de batalha, adotou o costume persa do harém. Diodoro relata que ele reuniu concubinas "em número não inferior aos dias do ano e destaque em beleza, selecionadas de todas as mulheres da Ásia. Cada noite, elas desfilavam em torno do divã do rei para que ele pudesse selecionar aquela com quem iria ficar à noite". A fama do harém correu o mundo helênico e gerou até a lenda de que uma rainha amazona chamada Thallestris foi a seu encontro no acampamento da fronteira da Hyrcânia (veja à pág. 34) com o intuito de conseguir um filho e se "consorciou com ele por 13 dias". Plutarco investigou as fofocas e deu a versão de Ptolomeu: "Dizem que tudo isso é falso (...) e parece que Alexandre mesmo, disso dá o seu testemunho porque, escrevendo a Antípatro (...) ele lhe diz que o rei da Cítia lhe queria dar a filha em casamento, mas não faz menção alguma a amazonas".
Vários costumes assumidos por Alexandre causavam estranheza aos companheiros. "O rei foi muito criticado pelo fato de exigir de seus súditos que se prostrassem diante dele. Isso horrorizava os gregos. Para eles e até entre seus generais macedônios, os costumes orientais utilizados por Alexandre eram traços que representavam a barbárie", diz Maria Beatriz Borba Florenzano, diretora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. "Ele chocou os gregos com um conceito muito avançado para a época. Ao aceitar orientais para seu Exército, disse, na Babilônia, que todos os homens são iguais", afirma o historiador José Luciano Cerqueira, da UFPE.
Marketing pessoal
O que se pode dizer da personalidade de alguém que se tornou general aos 16 anos, rei aos 20 e subjugou um império? Ele não apenas adotou e impôs novos costumes, como também promoveu um intenso intercâmbio cultural entre o Ocidente e o Oriente. "Alexandre foi um grande difusor do conceito de helenidade e seu sistema de propaganda está presente em esculturas (como as de seu escultor pessoal, Lísipo) e em moedas que mandou cunhar. Utilizava essas imagens para mostrar sua força física e o vigor em suas vitórias", diz Florenzano. "Costumava usar nas moedas as imagens de Zeus e Athena, seus deuses protetores, e também a do herói Hércules, que, na prática, era o retrato de Alexandre disfarçado." Cunhada ou esculpida, sua feição remetia ainda à de um leão.
De acordo com José Cerqueira, havia dois tipos de grego: os apolíneos (de Apolo), voltados à razão, e os dioníseos (de Dionísio, equivalente a Baco). "Alexandre estava nesse segundo grupo (como se vê pelas bacanais, que adorava). Sua ansiedade de conquistar tudo o angustiava", diz Cerqueira. "Ele tinha uma presença de espírito muito grande. Antes do início da campanha, ele foi consultar um oráculo. A pitonisa o mandou esperar na fila. Ele foi lá várias vezes, puxá-la pelo braço, para que fosse atendido. Depois de muita insistência, ela reclamou com ele: Com você, Alexandre, não há quem possa. Ele retrucou: Não preciso de mais respostas, já me disse o que precisava saber."
Muitos casamentos
Alexandre abandonou todas as suas concubinas quando se apaixonou por Roxana, filha do rei bactriano Oxyartes, irmão de Dario. Grande dançarina, ela o enfeitiçou numa apresentação assim que se conheceram. Foi seu primeiro casamento. Ainda durante a campanha na Índia, Aristóbulo relata que ele se casou com Parysatis, a filha caçula de um rei chamado Ochus, mas dela nada mais se sabe. Provavelmente, o ciúme de Roxana (ele sim relatado) deixou a rival no meio do caminho. De volta da Índia, Alexandre se casou em Susa com a filha mais velha de Dario, Estatira, e também com a mais nova, Barsine. Historiadores gregos e romanos alegam que esses casamentos eram uma forma política de Alexandre legitimar o trono persa (ou seja, uma jogada diplomática) e resultado de seu descontentamento por Roxana demorar a lhe conceder um herdeiro. Para o historiador grego Arriano, Alexandre mostrou o interesse de ter herdeiros. "Ele desejava que seus filhos e os de Heféstion fossem primos de primeiro grau." O rei aproveitou a ocasião de seu casamento com Estatira e Barsine para casar os seus companheiros de batalha (Heféstion, Crátero, Pérdicas, Ptolomeu, Eumênio, Nearcos e Selêuco) e, afirma Diodoro, a festa de núpcias foi sensacional: "Ele repartiu igualmente todas as demais damas persas, de sangue nobre e da mais alta linhagem, aos maiores de seus amigos. (...) Nesse banquete, escreve-se que havia 9 mil pessoas sentadas à mesa e a cada uma delas foi dada uma taça de ouro".
Segundo Plutarco, quem não gostou dos casamentos foi Roxana. Após a morte do marido, em 323 a.C., ela tratou de eliminar as concorrentes. Grávida do rei, enganou Estatira, forjando uma carta de Alexandre. Chamou-a ao palácio e "matou-a, ela e sua irmã mais nova, e depois jogou-lhes o corpo dentro de um poço". Quem diria! Quatro esposas rainhas e um harém. Alexandre era mesmo um grande conquistador.
Amor materno
Longe de Olímpia, ele adotou novas mães por onde passava
A pioneira no coração de Alexandre, claro, foi Olímpia, sua mãe e primeira esposa de Felipe II. Plutarco a retratou como uma feiticeira que criava serpentes, mas também como uma mãe que defendia o trono do filho e Alexandre a amava muito por isso. Mas a relação foi abalada após suspeitas investigadas por Aristóteles sobre a morte de Felipe: é que ela ordenou o assassinato da segunda esposa do marido. Alexandre partiu à Ásia brigado com a mãe, mas fizeram as pazes por cartas. Nelas, ela dava conselhos, demonstrava ciúme de Heféstion e não aceitava as noras como rainhas. Acabou assassinada após a morte do filho. Na Ásia, Alexandre "adotou" várias "mães". A primeira foi Ada, regente da Cária, durante a campanha na Ásia Menor. Obteve, assim, segundo Diodoro, o apoio dos carianos contra os persas. Ela costumava mimá-lo, oferecendo quitutes. Já Sisygambis, a mãe de Dario, foi tratada como rainha-mãe após a vitória na batalha de Issus. Alexandre manteve regalias e a nomeou tutora das netas, com quem se casaria mais tarde. Ao saber da morte do rei, ela teria se suicidado parando de comer. "Ele tratava muito bem as mulheres. Diferentemente de seu tutor, Aristóteles, que as igualava a escravos e bárbaros", diz José Cerqueira.

Alexandre sempre foi retratado por historiadores gregos e romanos como um homem cortês e respeitoso com as mulheres. Até os 20 anos, porém, não parecia preocupado com descobertas amorosas. Sua vida era controlada pela mãe, Olímpia, que vigiava sua educação e saúde. "Como qualquer mãe, a rainha anotava a altura e o peso do príncipe e acompanhava seu crescimento", diz Victor Davis Hanson, da Universidade de Chicago. Alguns autores concluem por isso que o rapaz era pequeno para a idade, ou Olímpia, superprotetora. Aos 13 anos, ele foi entregue ao pai, o rei Felipe II, da Macedônia, que determinou sua rigorosa educação militar. "Alexandre teve ainda lições de matemática, retórica e filosofia com Aristóteles", afirma Hanson. O tutor foi influência decisiva na formação do soberano, mas eles podiam ter visões de mundo distintas. Até sobre as mulheres (leia à pág. 31). O historiador romano Diodoro Sículo, que viveu no século 1 a.C. (200 anos depois da morte de Alexandre, em 323 a.C.) diz que, após o assassinato de Felipe, em 336 a.C., o jovem rei foi aconselhado pelos generais de seu pai, Antípatro e Parmênio, a se casar e a produzir um herdeiro aos 20 anos. Ele, que iria partir para o Oriente numa campanha militar histórica contra os persas, preferiu continuar solteiro: "Seria uma vergonha, apontou, depois de citar que tinha sido nomeado pela Grécia para comandar a guerra e herdado forças invencíveis de seu pai, ficar em casa comemorando um casamento e aguardando o nascimento de uma criança", escreveu Diodoro.
No entanto, o moço não era alheio ao charme feminino. Plutarco, escritor grego do século 1, relata que, após a destruição de Tebas, Alexandre deixou que uma mulher, Timocleia, partisse da cidade só porque, com o perdão do trocadilho, não tinha nada de mocreia: "Vendo-lhe o rosto, o porte e o andar, a princípio julgou que era uma dama de honra, enquanto ela caminhava com segurança (...) Maravilhado, mandou que a deixassem ir em liberdade para onde quisesse".
Ao pé da letra, os textos históricos garantem: a primeira mulher que Alexandre conheceu in natura foi a bela Barsena, viúva de seu inimigo Mêmnon, comandante das tropas mercenárias gregas e persas na batalha do rio Granico. Ela foi apresentada após a captura do tesouro real persa de Dario III, em Damasco. Segundo Plutarco, ela "era sábia em literatura grega, doce e graciosa (...). Alexandre conheceu-a por sugestão de Parmênio, conforme escreve Aristóbulo, que lhe solicitou travasse relações com tão bela e nobre dama". Na narrativa de Aristóbulo (contemporâneo de Alexandre), a insistência do general Parmênio em conseguir uma mulher para seu rei faz supor que ela inicia o rapaz no amor, aos 23 anos, em 333 a.C.
Depois ele não parou mais e até foi seduzido pelos pedidos femininos. A amante de seu amigo e general Ptolomeu, a africana Taís, lhe dirigiu gracejos no palácio de Persepólis durante uma bacanal (a festa de Baco, o deus do vinho) - "Um festim de músicas a que até as concubinas de seus amigos compareceram" - e ele, embriagado, atendeu, mandando botar fogo na cidade para depois arrepender-se da destruição (leia às págs. 32 e 33). Mas o auge de seu encantamento pelas mulheres acontece após a morte de Dario. Sem a preocupação de enfrentar um grande oponente no campo de batalha, adotou o costume persa do harém. Diodoro relata que ele reuniu concubinas "em número não inferior aos dias do ano e destaque em beleza, selecionadas de todas as mulheres da Ásia. Cada noite, elas desfilavam em torno do divã do rei para que ele pudesse selecionar aquela com quem iria ficar à noite". A fama do harém correu o mundo helênico e gerou até a lenda de que uma rainha amazona chamada Thallestris foi a seu encontro no acampamento da fronteira da Hyrcânia (veja à pág. 34) com o intuito de conseguir um filho e se "consorciou com ele por 13 dias". Plutarco investigou as fofocas e deu a versão de Ptolomeu: "Dizem que tudo isso é falso (...) e parece que Alexandre mesmo, disso dá o seu testemunho porque, escrevendo a Antípatro (...) ele lhe diz que o rei da Cítia lhe queria dar a filha em casamento, mas não faz menção alguma a amazonas".
Vários costumes assumidos por Alexandre causavam estranheza aos companheiros. "O rei foi muito criticado pelo fato de exigir de seus súditos que se prostrassem diante dele. Isso horrorizava os gregos. Para eles e até entre seus generais macedônios, os costumes orientais utilizados por Alexandre eram traços que representavam a barbárie", diz Maria Beatriz Borba Florenzano, diretora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. "Ele chocou os gregos com um conceito muito avançado para a época. Ao aceitar orientais para seu Exército, disse, na Babilônia, que todos os homens são iguais", afirma o historiador José Luciano Cerqueira, da UFPE.
Marketing pessoal
O que se pode dizer da personalidade de alguém que se tornou general aos 16 anos, rei aos 20 e subjugou um império? Ele não apenas adotou e impôs novos costumes, como também promoveu um intenso intercâmbio cultural entre o Ocidente e o Oriente. "Alexandre foi um grande difusor do conceito de helenidade e seu sistema de propaganda está presente em esculturas (como as de seu escultor pessoal, Lísipo) e em moedas que mandou cunhar. Utilizava essas imagens para mostrar sua força física e o vigor em suas vitórias", diz Florenzano. "Costumava usar nas moedas as imagens de Zeus e Athena, seus deuses protetores, e também a do herói Hércules, que, na prática, era o retrato de Alexandre disfarçado." Cunhada ou esculpida, sua feição remetia ainda à de um leão.
De acordo com José Cerqueira, havia dois tipos de grego: os apolíneos (de Apolo), voltados à razão, e os dioníseos (de Dionísio, equivalente a Baco). "Alexandre estava nesse segundo grupo (como se vê pelas bacanais, que adorava). Sua ansiedade de conquistar tudo o angustiava", diz Cerqueira. "Ele tinha uma presença de espírito muito grande. Antes do início da campanha, ele foi consultar um oráculo. A pitonisa o mandou esperar na fila. Ele foi lá várias vezes, puxá-la pelo braço, para que fosse atendido. Depois de muita insistência, ela reclamou com ele: Com você, Alexandre, não há quem possa. Ele retrucou: Não preciso de mais respostas, já me disse o que precisava saber."
Muitos casamentos
Alexandre abandonou todas as suas concubinas quando se apaixonou por Roxana, filha do rei bactriano Oxyartes, irmão de Dario. Grande dançarina, ela o enfeitiçou numa apresentação assim que se conheceram. Foi seu primeiro casamento. Ainda durante a campanha na Índia, Aristóbulo relata que ele se casou com Parysatis, a filha caçula de um rei chamado Ochus, mas dela nada mais se sabe. Provavelmente, o ciúme de Roxana (ele sim relatado) deixou a rival no meio do caminho. De volta da Índia, Alexandre se casou em Susa com a filha mais velha de Dario, Estatira, e também com a mais nova, Barsine. Historiadores gregos e romanos alegam que esses casamentos eram uma forma política de Alexandre legitimar o trono persa (ou seja, uma jogada diplomática) e resultado de seu descontentamento por Roxana demorar a lhe conceder um herdeiro. Para o historiador grego Arriano, Alexandre mostrou o interesse de ter herdeiros. "Ele desejava que seus filhos e os de Heféstion fossem primos de primeiro grau." O rei aproveitou a ocasião de seu casamento com Estatira e Barsine para casar os seus companheiros de batalha (Heféstion, Crátero, Pérdicas, Ptolomeu, Eumênio, Nearcos e Selêuco) e, afirma Diodoro, a festa de núpcias foi sensacional: "Ele repartiu igualmente todas as demais damas persas, de sangue nobre e da mais alta linhagem, aos maiores de seus amigos. (...) Nesse banquete, escreve-se que havia 9 mil pessoas sentadas à mesa e a cada uma delas foi dada uma taça de ouro".
Segundo Plutarco, quem não gostou dos casamentos foi Roxana. Após a morte do marido, em 323 a.C., ela tratou de eliminar as concorrentes. Grávida do rei, enganou Estatira, forjando uma carta de Alexandre. Chamou-a ao palácio e "matou-a, ela e sua irmã mais nova, e depois jogou-lhes o corpo dentro de um poço". Quem diria! Quatro esposas rainhas e um harém. Alexandre era mesmo um grande conquistador.
Amor materno
Longe de Olímpia, ele adotou novas mães por onde passava
A pioneira no coração de Alexandre, claro, foi Olímpia, sua mãe e primeira esposa de Felipe II. Plutarco a retratou como uma feiticeira que criava serpentes, mas também como uma mãe que defendia o trono do filho e Alexandre a amava muito por isso. Mas a relação foi abalada após suspeitas investigadas por Aristóteles sobre a morte de Felipe: é que ela ordenou o assassinato da segunda esposa do marido. Alexandre partiu à Ásia brigado com a mãe, mas fizeram as pazes por cartas. Nelas, ela dava conselhos, demonstrava ciúme de Heféstion e não aceitava as noras como rainhas. Acabou assassinada após a morte do filho. Na Ásia, Alexandre "adotou" várias "mães". A primeira foi Ada, regente da Cária, durante a campanha na Ásia Menor. Obteve, assim, segundo Diodoro, o apoio dos carianos contra os persas. Ela costumava mimá-lo, oferecendo quitutes. Já Sisygambis, a mãe de Dario, foi tratada como rainha-mãe após a vitória na batalha de Issus. Alexandre manteve regalias e a nomeou tutora das netas, com quem se casaria mais tarde. Ao saber da morte do rei, ela teria se suicidado parando de comer. "Ele tratava muito bem as mulheres. Diferentemente de seu tutor, Aristóteles, que as igualava a escravos e bárbaros", diz José Cerqueira.
Clique nas imagens para exibir os infográficos (Ilustração: Jean Magalhães - Design: Fabio Otubo)
Os homens da vida do rei
A bissexualidade era mais aceita à época de Alexandre
A bissexualidade na Grécia era relativamente aceita. Não havia os conceitos de hetero ou homossexual.Plutarco nega que Alexandre preferisse homens. Teria demonstrado isso duas vezes ao recusar belos rapazes enviados pelos mercadores Filóxeno e Ágno. Mas Diodoro Sículo tem outra visão: "Em sua vida, ele tinha preferido Heféstion a todos, embora Crátero reivindicasse o seu amor, mas foi Heféstion, seu amante?" Mas o historiador não responde. Segundo Plutarco, "ele amava mais a um e honrava mais ao outro, dizendo mesmo que Heféstion amava Alexandre e Crátero amava o rei". A documentação sobre o monarca não menciona intimidades com homens, exceto a cena citada pelo historiador grego e reproduzida no cinema, o beijo em Bagoas: "Um dia depois de ter bebido muito, foi assistir ao concurso de danças, dentre todas, a de Bagoas, um moço, de quem Alexandre gostava, obteve a vitória (...) e foi sentar-se perto de Alexandre. Os macedônios puseram-se a bater palmas e soltar exclamações de alegria, dizendo em voz alta que o beijasse. Era tal o barulho que ele o tomou nos braços e o beijou diante de todos".
Saiba mais
Livro
Alexandre e César - Vidas Paralelas, Plutarco. Editora LPM, 1994.
O historiador grego compilou as cartas da Academia de Atenas sobre a vida pessoal de Alexandre.
Sites
www1.lib.uchicago.edu/e/index.html
The Historical Library, Diodorus Siculus. Em inglês. Diodoro reuniu várias informações sobre Felipe II da Macedônia.
www.dominiopublico.gov.br
A bissexualidade era mais aceita à época de Alexandre
A bissexualidade na Grécia era relativamente aceita. Não havia os conceitos de hetero ou homossexual.Plutarco nega que Alexandre preferisse homens. Teria demonstrado isso duas vezes ao recusar belos rapazes enviados pelos mercadores Filóxeno e Ágno. Mas Diodoro Sículo tem outra visão: "Em sua vida, ele tinha preferido Heféstion a todos, embora Crátero reivindicasse o seu amor, mas foi Heféstion, seu amante?" Mas o historiador não responde. Segundo Plutarco, "ele amava mais a um e honrava mais ao outro, dizendo mesmo que Heféstion amava Alexandre e Crátero amava o rei". A documentação sobre o monarca não menciona intimidades com homens, exceto a cena citada pelo historiador grego e reproduzida no cinema, o beijo em Bagoas: "Um dia depois de ter bebido muito, foi assistir ao concurso de danças, dentre todas, a de Bagoas, um moço, de quem Alexandre gostava, obteve a vitória (...) e foi sentar-se perto de Alexandre. Os macedônios puseram-se a bater palmas e soltar exclamações de alegria, dizendo em voz alta que o beijasse. Era tal o barulho que ele o tomou nos braços e o beijou diante de todos".
Saiba mais
Livro
Alexandre e César - Vidas Paralelas, Plutarco. Editora LPM, 1994.
O historiador grego compilou as cartas da Academia de Atenas sobre a vida pessoal de Alexandre.
Sites
www1.lib.uchicago.edu/e/index.html
The Historical Library, Diodorus Siculus. Em inglês. Diodoro reuniu várias informações sobre Felipe II da Macedônia.
www.dominiopublico.gov.br
Anabasis, Lucius Flavius Arrian Xenofonte. Em inglês. É o melhor relato sobre os feitos militares de Alexandre.
Post-Scriptum
Entre o homem e o mito
A herança macedônica, a formação de Alexandre III, o Grande, e o seu legado
Alexandre III, o Grande, pertencia à dinastia Argéada, que governou a Macedônia por mais de 400 anos. Segundo o historiador grego Plutarco, os argéadas descendiam do general macedônico Argeas, descendente direto de Témeno, tetraneto de Heracles (ou Hércules), originário de Argos, cidade-mãe de muitos heróis da Guerra de Troia. Heródoto defendia a origem grega dos reis dessa dinastia. Um dos principais modos de legitimar governos ou casas reais até a Idade Média era atribuir uma origem mítica às dinastias. Diferentemente dos faraós do Egito (considerados a reencarnação do deus Amon-Rá), muitos líderes dos povos do mundo antigo e medieval precisaram ligar seu nome a algum antepassado lendário. Na Macedônia, isso coube a Alexandre I (498-454 a.C.) e, assim, o reino foi aceito nos Jogos Olímpicos, em 476 a.C, então restritos a cidades gregas ou de origem grega.
Felipe II (359-336 a.C.) realizou uma série de reformas para modernizar o Estado. De um reino semibárbaro, ele transformou a Macedônia em uma emergente potência. Da união com Olímpia (filha do rei do Épiro, região localizada entre as atuais Macedônia, Croácia e Albânia), levada a casar-se por questões políticas, nasceu Alexandre - cercado de lendas. Segundo Plutarco e o historiador romano Arriano, enquanto nascia o príncipe, Felipe teve três significativas vitórias: seu general Parmênio derrotou os exércitos ilíricos e subjugou uma importante cidade portuária. Também os cavalos reais de Felipe venceram os jogos. É bem provável que sejam histórias inventadas para dar um toque de grandeza ao nascimento de Alexandre. Assim como o famoso caso do cavalo (Bucéfalo) que tinha medo da sua própria sombra e teria sido domado depois que Alexandre cochichou no seu ouvido. Segundo Xenofonte, todo adestrador de cavalos cochichava para acalmar os animais.
Pouco se sabe sobre Olímpía e boa parte das informações foi registrada por seus inimigos. Cassandro, um dos diádocos (sucessores de Alexandre), a define como violenta, neurótica e supersticiosa. Outra lenda diz que Zeus, em forma de cobra, teria seduzido e engravidado Olímpia. Também se costumava dizer que o faraó Nectanebo II, fugindo do domínio persa no Egito, teria se refugiado na corte macedônica e se apaixonado por Olímpia. Seria ele o pai de Alexandre. Ambas as lendas o colocam em um plano superior: mostram sua origem divina para os gregos (filho de Zeus e um herói como Hércules, meio deus, meio mortal) e atribuem a ele o sangue divino dos faraós, dando a Alexandre direito ao trono do Egito, uma de suas futuras conquistas.
Aos 13 anos, Alexandre passou à tutela do filósofo Aristóteles. Teve aulas de eloquência, entre outros temas. Decorou os poemas homéricos (Ilíada e Odisseia), lia Heródoto e Píndaro. Nesse período, teria tomado ciência de uma união entre a cultura grega e a oriental (o helenismo). Aconselhado por Aristóteles, Felipe passou o comando da cavalaria para Alexandre aos 16 anos. Aos poucos, o jovem ganhou a simpatia e a lealdade dos soldados. Mesmo sendo afastado pelo pai do poder (depois do segundo casamento de Felipe), essa lealdade não acabou. A morte de Felipe II, em 336 a.C., ainda é mal explicada. O assassino, Pausânias (servo, guarda-costas e amante do rei), foi executado sem interrogatório. Ao assumir o trono, Alexandre inicia a expansão. Seus amigos, Ptolomeu, Cassandro, Lisímaco e Seleuco (diádocos), ocuparam posições destacadas no Exército.
O sonho de um Estado multiétnico morreu com Alexandre, em 323 a.C. Seus generais brigaram até dividir o império em reinos. Cassandro, à frente da Macedônia, eliminou os herdeiros de sangue: Alexandre IV, filho de Roxana, princesa da Báctria, ela, Olímpia e Felipe III, meio-irmão do rei. A cultura grega, porém, foi difundida enquanto se formava o império, concretizando o ideal do helenismo. Alexandria, o maior centro científico, econômico e cultural, até a supremacia de Roma, foi fundada nesse período. E avanços em diversas áreas do conhecimento, como medicina e filosofia, são dessa época.
*Claudio Umpierre Carlan é doutor em história cultural (antiga) pela Unicamp, professor da Universidade Federal de Alfenas e da Universidade Carlos III (Madri).Alexandre III da Macedônia,1 2 3 dito o Grande ou Magno (em grego, Αλέξανδρος o Τρίτος o Μακεδών, Aléxandros ho Trítos ho Makedón, Αλέξανδρος ο Μέγας,Aléxandros ho Mégas ou Μέγας Αλέξανδρος, Mégas Aléxandros4 5 ; Pela (ou em Vergina), 20 de julho de 356 a.C.6 — Babilônia, 10 de junho de 323 a.C.7 8 9 ) foi um príncipe e rei da Macedônia, e um dos três filhos do rei Filipe II e de Olímpia do Épiro – uma fiel mística e ardente do deus grego Dioniso.
Post-Scriptum
Entre o homem e o mito
A herança macedônica, a formação de Alexandre III, o Grande, e o seu legado
Alexandre III, o Grande, pertencia à dinastia Argéada, que governou a Macedônia por mais de 400 anos. Segundo o historiador grego Plutarco, os argéadas descendiam do general macedônico Argeas, descendente direto de Témeno, tetraneto de Heracles (ou Hércules), originário de Argos, cidade-mãe de muitos heróis da Guerra de Troia. Heródoto defendia a origem grega dos reis dessa dinastia. Um dos principais modos de legitimar governos ou casas reais até a Idade Média era atribuir uma origem mítica às dinastias. Diferentemente dos faraós do Egito (considerados a reencarnação do deus Amon-Rá), muitos líderes dos povos do mundo antigo e medieval precisaram ligar seu nome a algum antepassado lendário. Na Macedônia, isso coube a Alexandre I (498-454 a.C.) e, assim, o reino foi aceito nos Jogos Olímpicos, em 476 a.C, então restritos a cidades gregas ou de origem grega.
Felipe II (359-336 a.C.) realizou uma série de reformas para modernizar o Estado. De um reino semibárbaro, ele transformou a Macedônia em uma emergente potência. Da união com Olímpia (filha do rei do Épiro, região localizada entre as atuais Macedônia, Croácia e Albânia), levada a casar-se por questões políticas, nasceu Alexandre - cercado de lendas. Segundo Plutarco e o historiador romano Arriano, enquanto nascia o príncipe, Felipe teve três significativas vitórias: seu general Parmênio derrotou os exércitos ilíricos e subjugou uma importante cidade portuária. Também os cavalos reais de Felipe venceram os jogos. É bem provável que sejam histórias inventadas para dar um toque de grandeza ao nascimento de Alexandre. Assim como o famoso caso do cavalo (Bucéfalo) que tinha medo da sua própria sombra e teria sido domado depois que Alexandre cochichou no seu ouvido. Segundo Xenofonte, todo adestrador de cavalos cochichava para acalmar os animais.
Pouco se sabe sobre Olímpía e boa parte das informações foi registrada por seus inimigos. Cassandro, um dos diádocos (sucessores de Alexandre), a define como violenta, neurótica e supersticiosa. Outra lenda diz que Zeus, em forma de cobra, teria seduzido e engravidado Olímpia. Também se costumava dizer que o faraó Nectanebo II, fugindo do domínio persa no Egito, teria se refugiado na corte macedônica e se apaixonado por Olímpia. Seria ele o pai de Alexandre. Ambas as lendas o colocam em um plano superior: mostram sua origem divina para os gregos (filho de Zeus e um herói como Hércules, meio deus, meio mortal) e atribuem a ele o sangue divino dos faraós, dando a Alexandre direito ao trono do Egito, uma de suas futuras conquistas.
Aos 13 anos, Alexandre passou à tutela do filósofo Aristóteles. Teve aulas de eloquência, entre outros temas. Decorou os poemas homéricos (Ilíada e Odisseia), lia Heródoto e Píndaro. Nesse período, teria tomado ciência de uma união entre a cultura grega e a oriental (o helenismo). Aconselhado por Aristóteles, Felipe passou o comando da cavalaria para Alexandre aos 16 anos. Aos poucos, o jovem ganhou a simpatia e a lealdade dos soldados. Mesmo sendo afastado pelo pai do poder (depois do segundo casamento de Felipe), essa lealdade não acabou. A morte de Felipe II, em 336 a.C., ainda é mal explicada. O assassino, Pausânias (servo, guarda-costas e amante do rei), foi executado sem interrogatório. Ao assumir o trono, Alexandre inicia a expansão. Seus amigos, Ptolomeu, Cassandro, Lisímaco e Seleuco (diádocos), ocuparam posições destacadas no Exército.
O sonho de um Estado multiétnico morreu com Alexandre, em 323 a.C. Seus generais brigaram até dividir o império em reinos. Cassandro, à frente da Macedônia, eliminou os herdeiros de sangue: Alexandre IV, filho de Roxana, princesa da Báctria, ela, Olímpia e Felipe III, meio-irmão do rei. A cultura grega, porém, foi difundida enquanto se formava o império, concretizando o ideal do helenismo. Alexandria, o maior centro científico, econômico e cultural, até a supremacia de Roma, foi fundada nesse período. E avanços em diversas áreas do conhecimento, como medicina e filosofia, são dessa época.
*Claudio Umpierre Carlan é doutor em história cultural (antiga) pela Unicamp, professor da Universidade Federal de Alfenas e da Universidade Carlos III (Madri).Alexandre III da Macedônia,1 2 3 dito o Grande ou Magno (em grego, Αλέξανδρος o Τρίτος o Μακεδών, Aléxandros ho Trítos ho Makedón, Αλέξανδρος ο Μέγας,Aléxandros ho Mégas ou Μέγας Αλέξανδρος, Mégas Aléxandros4 5 ; Pela (ou em Vergina), 20 de julho de 356 a.C.6 — Babilônia, 10 de junho de 323 a.C.7 8 9 ) foi um príncipe e rei da Macedônia, e um dos três filhos do rei Filipe II e de Olímpia do Épiro – uma fiel mística e ardente do deus grego Dioniso.
Alexandre foi o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em sua juventude, teve como preceptor o filósofo Aristóteles. Tornou-se o rei aos vinte anos, na sequência do assassinato do seu pai.
Índice
[esconder]Vida[editar | editar código-fonte]
A sua carreira é sobejamente conhecida: conquistou um império que ia dos Balcãs à Índia, incluindo também o Egitoe a Báctria (aproximadamente o atual Afeganistão). Este império era o maior e mais rico que já havia existido. Existem várias razões para esses grandes êxitos militares, um deles é que Alexandre era um general de extraordinária habilidade e sagacidade, talvez o melhor de todos os tempos, pois ele nunca perdeu nenhuma batalha e a expansão territorial que ele proporcionou é uma das maiores da história, a maior expansão territorial em um período bem curto de tempo. Além disso era um homem de muita coragem pessoal e de reconhecida sorte.
Ele herdou um reino que fora organizado com punho de ferro pelo pai, que tivera de lutar contra uma nobreza turbulenta que frequentemente reclamava por mais privilégios, as ligas lideradas por Atenas, e Tebas (a batalha de Queroneia representa o fim da democracia ateniense e por arrastamento das outras cidades gregas e de uma certa concepção de liberdade), revolucionando a arte da guerra.
A sua personalidade é considerada de formas diferentes segundo a percepção de quem o examina: por um lado, homem de visão, extremamente inteligente, tentando criar uma síntese entre o oriente e ocidente (encorajou o casamento entre oficiais seus e mulheres persas, além de utilizar persas ao seu serviço), respeitador dos derrotados (acolheu bem a família de Dario III e permitiu às cidades dominadas a manutenção de governantes, religião, língua e costumes) e admirador das ciências e das artes (fundou, entre algumas dezenas de cidades homónimas, Alexandria, que viria a se tornar o maior centro cultural, científico e econômico da Antiguidade por mais de trezentos anos, até ser substituída por Roma); por outro lado, profundamente instável e sanguinário (as destruições das cidades de Tebas e Persepólis, os assassinatos de Clito e de Parménio, dois de seus melhores generais, a sua ligação com um eunuco), limitando-se a usar o pessoal de valor que tinha à sua volta em proveito próprio.
De qualquer modo, fez o que pôde para expandir o helenismo: criou cidades com o seu nome com os seus veteranos feridos por todo o território e deu nome para cidade homenageando seu inseparável e famoso cavalo Bucéfalo. Abafou uma rebelião de cidades gregas sob o domínio macedónio e preparou-se para conquistar a Pérsia.
Em 334 a.C. empreendeu sua primeira campanha contra os persas na Batalha de Grânico que deu-lhe o controle da Ásia Menor (atual Turquia). No ano seguinte, derrotou o rei Dario III na Batalha de Isso. Mais um ano depois, conquistou o Egipto e Tiro, em 331 a.C. Completou a conquista da Pérsia na Batalha de Gaugamela, onde derrotou definitivamente Dario III, o que lhe conferiu o estatuto de imperador aquemênida.
A tendência de fusão da cultura dos macedônios com a grega provocou nestes temor quanto a um excessivo afastamento dos ideais helênicos por parte de seu monarca. Todavia, nada impediu Alexandre de continuar seu projeto imperialista em direção ao oriente. Durante cerca de dois anos Alexandre manteve-se ocupado em várias campanhas de curta duração para a consolidação do seu império. Mas, em 327 a.C., conduzindo as suas tropas por cima das montanhas Indocuche para o vale do rio Indo, para conquistar a Índia, país mítico para os gregos, foi forçado a regressar à Babilónia devido ao cansaço das suas tropas, e instalaria aí a capital do seu império. Deixou atrás de si novas colónias, como Niceia e Bucéfala, esta erigida em memória de seu cavalo, às margens do rio Hidaspes.
Ele tinha a intenção de fazer ainda mais conquistas. Sabe-se que planejava invadir a Arábia e, provavelmente, as regiões ao norte do Império Aquemênida. Poderia também ter planejado outra invasão da Índia ou a conquista de Roma, Cartago e do Mediterrâneo ocidental[carece de fontes].
Infelizmente nenhuma das fontes contemporâneas sobreviveu (Calístenes e Ptolomeu), nem sequer das gerações posteriores: apenas possuímos textos do século I que usaram fontes que copiaram os textos originais, de modo que muitos dos pormenores da sua vida são bastante discutíveis.
Alexandre morreu depois de doze anos de constante campanha militar, sem completar os trinta e três anos, possivelmente como resultado de malária, envenenamento,febre tifóide, encefalite virótica ou em consequência de alcoolismo.10 11
O exército de Alexandre Magno[editar | editar código-fonte]
O exército macedónio sob Filipe II e sob Alexandre Magno era composto por diversos corpos complementando-se entre si: cavalaria pesada; cavalaria ligeira; infantaria pesada e infantaria ligeira.
A cavalaria pesada era constituída pelos hetairoi ou companheiros, formados em esquadrões ilai de 256 ginetes com capacete beócio, couraça de bronze ou linotorax, equipados com xyston ou lança de 3,80 m e uma espada. Os militares formavam a unidade de elite de cavalaria aristocrática macedónia, sendo o principal elemento ofensivo. Em situação de combate, formavam à direita dos hypspistas; os nove esquadrões com o esquadrão real de 300 cavaleiros tomando o lugar de honra, sob o comando de Clito Melas, cujo dever era o de proteger o rei durante as batalhas; à sua esquerda, colocavam-se os outros chefes em 8 esquadrões de 256 homens, subdivididos em 4 unidades de 64 ginetes sob comando de Filotas.
À frente de todos estes, posicionavam-se os arqueiros e protegendo o flanco direito, os prodromoi e restante cavalaria ligeira.
Alexandre e o Egito[editar | editar código-fonte]
A cultura do Antigo Egito impressionou Alexandre desde os primeiros dias de sua estadia naquele país. Os grandes vestígios que ele via por toda parte lhe cativaram até o ponto que ele quis "faraonizar-se" como aqueles reis quase míticos. A História da Arte nos tem deixado testemunhos destes feitos e apetências. Em Karnak existe um relevo onde se vê Alexandre fazendo as oferendas ao deus Amon. Veste a indumentária faraônica:
- Klaft faraónico (manto que cobre a cabeça e vai por trás das orelhas, clássico do antigo Egito), mais a "Coroa Dupla", vermelha e branca, que se sustenta em equilíbrio instável.
- Cauda litúrgica de chacal, que com o tempo se transformou em "cauda de vaca".
- Oferenda em quatro vasos como símbolo para indicar "quantidade", "repetição", "abundância" e "multiplicação".
Nos hieróglifos do muro se distinguem, além dos títulos de Alexandre – faraó que se representam dentro de um serej e um cartucho egípcio.
Relações pessoais[editar | editar código-fonte]
O grande amigo e companheiro de toda a vida de Alexandre foi Heféstion, filho de um nobre da Macedônia. Heféstion, para além de amigo pessoal de Alexandre, foi o vice-comandante do seu exército, até a sua morte.
Reinado e conquistas[editar | editar código-fonte]
Logo após assumir o trono, Alexandre reiniciou a campanha contra a Pérsia. Em 335 a.C. convocou a Liga de Corinto e convenceu seus membros a elegê-lo comandante numa guerra de retaliação contra a Pérsia, como seu pai havia feito dois anos antes. Com exceção de Esparta, todas as grandes cidades-estado gregas ficaram a seu lado.6
A Pérsia havia desempenhado um importante papel na Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta nas três últimas décadas do século V a.C.. Após isso, um tratado assinado em 386 a.C. estabeleceu que as cidades gregas na Ásia Menor continuariam sob domínio persa. Porém no século IV a.C. alguns dos mais poderosos oradores gregos continuavam a clamar pela "libertação dos gregos da Ásia Menor". A Macedônia não era signatária do tratado de 386 a.C. e sua intenção de libertar os gregos da Ásia Menor do domínio persa atraiu a boa vontade da Liga de Corinto, mesmo com os temores das várias cidades-estado em relação ao domínio macedônio.6
Após combater a revolta da cidade de Tebas, Alexandre empenhou-se na campanha contra a Pérsia que o levaria numa viagem até os confins da Índia e, apesar de ter criado um império e nunca ter sido derrotado em combate, morreria sem rever sua terra.6
O legado de Alexandre[editar | editar código-fonte]
Com a sua morte, os seus generais repartiram o seu império e a sua família acabou por ser exterminada. Os Epígonos iriam gastar gerações seguidas em conflitos. Apenas Seleuco esteve prestes a reunificar o império (faltando o Egipto) por um curto espaço de tempo. Os seus sucessores fizeram o que puderam para manter o helenismo vivo: gregos e macedónios foram encorajados a emigrar para as novas cidades. Alexandria no Egipto teve um destino brilhante devido aos cuidados dos ptolomaicos (o Egipto, apesar da sua monumentalidade, nunca possuíra grandes metrópoles): tornou-se um porto internacional, um centro financeiro e um foco de cultura graças à biblioteca; mas outras cidades como Antioquia, Selêucia do Tigre e Éfeso também brilharam. Reinos no oriente, como os greco-bactrianos (Afeganistão) e greco-indianos, expandiram o helenismo geograficamente mais do que Alexandre o fizera. Quando os partas (um povo indo-europeu aparentado com os citas) ocuparam a Pérsia, esses reinos subsistiram até aoséculo I a.C., com as ligações cortadas ao ocidente.
Alexandre tem persistido na história e mitos tanto da cultura grega como das não-gregas. Depois de sua morte (e inclusive durante sua vida) suas conquistas inspiraram uma tradição literária na que aparece como um herói legendário, na tradição deAquiles. Também é mencionado no livro zoroástrico de Arda Viraf como "Alexandre, o Maldito", em persa Guzastag,12 pela conquista do Império Aquemênida e a destruição de sua capital, Persépolis.
Roma recuperou o legado helenístico, e a miragem do império de Alexandre: Crasso e Marco António tentaram conquistar a Pérsia com péssimos resultados. Trajano morreu a meio de uma expedição, Septímio Severo teve o bom senso de desistir a meio e só Heráclito, no período bizantino, teve uma campanha vitoriosa: debalde, pois os árabes acabaram com a Pérsia Sassânida, enfraquecida pelas longas guerras com oImpério Bizantino.
O ocidente medieval viu nele o perfeito cavaleiro, incluindo no grupo dos nove bravos e estabeleceu lendas e o "Romance de Alexandre". Luís XIV apreciava vestir-se como Alexandre (à maneira do século XVIIobviamente) e esse epíteto seria sempre apreciado por monarcas absolutos.
Os nomes de Alexandre[editar | editar código-fonte]
O império fundado por Alexandre marcou as culturas do oriente e seu nome possui versões em diversas línguas:
- Em persa, Eskandar-e Maqduni ("Alexandre da Macedônia");
- Em árabe ر, الإسكندر الأكب Al-Iskandar al-Akbar;
- Em urdu, سکندر اعظم, Sikandar-e-azam;
- Em pashto, Skandar;
- Em hebraico, אלכסנדר מוקדון, Alexander Mokdon
Sikandar, seu nome em Urdu e Hindi, também se emprega como sinônimo de "esperto" ou "extremamente hábil".
Nas tradições do Oriente Médio é chamado de Dhul-Qarnayn , "o (homem) dos dois chifres", assim como em aramaico é referido como Tre-Qarnayia ("o dos dois chifres"), possivelmente devido às moedas cunhadas durante seu reinado representando-o com os chifres de carneiro do deus egípcio Amon
Representações na cultura[editar | editar código-fonte]
Na música, a banda inglesa Iron Maiden em 1986 compôs "Alexander, The Great" que fez parte do disco Somewhere in Time também do mesmo ano.
No século XX, Alexandre o Grande foi objeto de muitos documentários da televisão.
Dois filmes de grande sucesso tiveram como assunto Alexandre o Grande:
- Alexander the Great (1956), onde o papel de Alexandre coube ao ator Richard Burton.
- Alexander (2004), onde o papel de Alexandre coube ao ator Colin Farrell.
Ver também[editar | editar código-fonte]
Referências
- ↑ TEMPLAR, Marcus (2003). Fallacies and facts on the Macedonian issue (em inglês).
- ↑ POMEROY, S., BURSTEIN, S., DOLAN, W., ROBERTS, J. (1998) Ancient Greece: A Political, Social, and Cultural History, Oxford University Press, ISBN 0-19-509742-4
- ↑ HAMMOND, N.G.L., (1989) The Macedonian State: Origins, Institutions, and History, pp. 12-13, Oxford University Press, ISBN 0-19-814883-6
- ↑ O nome Αλέξανδρος deriva das palavras gregas αλέξω ("repelir", "abrigar", "proteger") e ανήρ ("homem"); casogenitivo ανδρός ("protetor de homens")
- ↑ Online Etymology Dictionary, Alexander, Consultado em 09.03.2008
- ↑ a b c d RICE, E.E.. Alexandre: o Grande. 1 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 110 p. 1 vol. vol. 1.ISBN 85-209-1707-0
- ↑ bbc.co.uk - Health Alexander's death riddle is 'solved'
- ↑ A data real de seu nascimento ainda está em discussão. Embora 20 de julho seja a mais amplamente aceita.
- ↑ livius.org - O primeiro mês do ano, teoricamente começando na primeira lua nova depois do solstício de verão. Isto pode significar que Alexandre nasceu em 20 de julho de 356. Os calendários astronômicos, religiosos e civis não coincidiam no quarto século; como consequência, é impossível ter-se certeza da data de nascimento de Alexandre
- ↑ BBC News | Health | Alexander's death riddle is 'solved'
- ↑ CDC - Alexander the Great and West Nile Virus Encephalitis
- ↑ CAWTHORNE, Nigel (2004). Alexander the Great (em inglês) Haus Publishing.ISBN 1-904341-56-X
Bibliografia[editar | editar código-fonte]
- PLUTARCO. Vidas paralelas: Alexandre e César. Porto Alegre: LP&M, 2005.
- HAMMOND, N.G.L. O gênio de Alexandre o Grande. São Paulo: Madras, 2006.
Ligações externas[editar | editar código-fonte]
- Alexandre, o Grande, por Michael Lahanas (em inglês)
- O império e as expedições de Alexandre, o Grande (em português)
- Reinos dos sucessores de Alexandre: após a Batalha de Ipso, 301 a.C. (em português)
| Precedido por: Filipe II | Rei da Macedónia 336 a.C. — 323 a.C. | Sucedido por: Filipe III |
| Precedido por: Dario III | imperador aquemênida | |
| Faraó |

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