segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

DINHEIRO

dinheiro é o meio usado na troca de bens, na forma de moedas ou notas (cédulas), usado na compra de bens, serviços, força de trabalho, divisas estrangeiras ou nas demais transações financeiras, emitido e controlado pelo governo de cada país, que é o único que tem essa atribuição. É também a unidade contábil. Seu uso pode ser implícito ou explícito, livre ou por coerção. Acredita-se que a origem da palavra remete à moeda portuguesa de mesmo nome (o dinheiro).
A emergência do dinheiro não depende de uma autoridade central ou governo. É um fenômeno do mercado; na prática, entretanto, os tipos de moeda mais aceitas atualmente são aquelas produzidas e sancionadas pelos governos. A maior parte dos países possuem um padrão monetário específico — um dinheiro reconhecido oficialmente, possuindo monopólio sobre sua emissão. Algumas exceções são o euro(usado por diversos países europeus) e o dólar (utilizado em todo mundo).
O dinheiro em si é um bem escasso. Muitos itens podem ser usados como dinheiro, desde metais e conchas raras até cigarros ou coisas totalmente artificiais como notas bancárias. Em épocas de escassez de meio circulante, a sociedade procura formas de contornar o problema (dinheiro de emergência), o importante é não perder o poder de troca e compra. Podem substituir o dinheiro governamental: cupons, passes, recibos, cheques, vales, notas comerciais entre outros.
Na sociedade ocidental moderna o dinheiro é essencialmente um símbolo – uma abstração. Atualmente as notas são o tipo mais comum de dinheiro utilizado. No entanto bens como ouro e prata mantêm muitas das características essenciais do dinheiro.

História[editar | editar código-fonte]

Reconstituição de antigo processo paracunhagem de moedas.
Inicialmente, o homem comercializava através de simples troca ou escambo.[1] A mercadoria era avaliada na quantidade de tempo ou força de trabalho gasta para produzi-la ou até mesmo pela necessidade que o "comprador" tinha por determinada mercadoria. Com a criação da moeda o valor da mercadoria se tornou independente da força de trabalho. Com o surgimento dos bancos apareceu uma nova atividade financeira em que o próprio dinheiro é uma mercadoria.[carece de fontes]

Origem e evolução do dinheiro[editar | editar código-fonte]

Escambo[editar | editar código-fonte]

Escambo pintura.jpg
moeda, como hoje a conhecemos, é o resultado de uma longa evolução. No início não havia moeda. Praticava-se o escambo, simples troca de mercadoria por mercadoria, sem equivalência de valor.[2]
Assim, quem pescasse mais peixe do que o necessário para si e seu grupo trocava este excesso com o de outra pessoa que, por exemplo, tivesse plantado e colhido mais milho do que fosse precisar. Esta elementar forma de comércio foi dominante no início dacivilização, podendo ser encontrada, ainda hoje, entre povos de economia primitiva, em regiões onde, pelo difícil acesso, há escassez de meio circulante, e até em situações especiais, em que as pessoas envolvidas efetuam permuta de objetos sem a preocupação de sua equivalência de valor. Este é o caso, por exemplo, da criança que troca com o colega um brinquedo caro por outro de menor valor, que deseja muito.
As mercadorias utilizadas para escambo geralmente se apresentam em estado natural, variando conforme as condições de meio ambiente e as atividades desenvolvidas pelo grupo, correspondendo a necessidades fundamentais de seus membros. Nesta forma de troca, no entanto, ocorrem dificuldades, por não haver uma medida comum de valor entre os elementos a serem permutados.

Moeda-mercadoria[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Moeda-mercadoria
Algumas mercadorias, pela sua utilidade, passaram a ser mais procuradas do que outras. Aceites por todos, assumiram a função de moeda, circulando como elemento trocado por outros produtos e servindo para avaliar o seu valor. Eram as moedas–mercadorias.
O gado, principalmente o bovino, foi dos mais utilizados; apresentava vantagens de locomoção própria, reprodução e prestação de serviços, embora ocorresse o risco de doenças e da morte. O sal foi outra moeda–mercadoria; de difícil obtenção, principalmente no interior dos continentes, era muito utilizado na conservação de alimentos. Ambas deixaram marca de sua função como instrumento de troca no nosso vocabulário, pois, até hoje, empregamos palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro acumulado) derivadas da palavra latina pecus (gado). A palavra capital (patrimônio) vem do latim capita (cabeça). Da mesma forma, a palavra salário (remuneração, normalmente em dinheiro, devida pelo empregador em face do serviço do empregado) tem como origem a utilização do sal, em Roma, para o pagamento de serviços prestados.
No Brasil, entre outras, circularam o cauri – trazido pelo escravo africano –, o pau-brasil, o açúcar, o cacau, o tabaco e o pano, trocado no Maranhão, no século XVII, devido à quase inexistência de numerário, sendo comercializado sob a forma de novelos, meadas e tecidos.
Com o passar do tempo, as mercadorias se tornaram inconvenientes às transações comerciais, devido à oscilação de seu valor, pelo fato de não serem fraccionáveis e por serem facilmente perecíveis, não permitindo o acúmulo de riquezas.

Metal[editar | editar código-fonte]

Quando o homem descobriu o metal, passou a utilizá-lo para fabricar utensílios e armas anteriormente feitos de pedra ou madeira.
Por apresentar vantagens como a possibilidade de entesouramento, divisibilidade, raridade, facilidade de transporte e beleza, o metal foi elegido como principal padrão de valor. Era trocado sob as formas mais diversas. A princípio, em seu estado natural, depois sob a forma de barras e, ainda, sob a forma de objetos, como anéis, braceletes etc. O metal comercializado dessa forma exigia aferição de peso e avaliação de seu grau de pureza a cada troca. Mais tarde, ganhou forma definida e peso determinado, recebendo marca indicativa de valor, que também apontava o responsável pela sua emissão. Essa medida agilizou as transações, dispensando a pesagem e permitindo a imediata identificação da quantidade de metal oferecida para troca.

Moeda em formato de objeto[editar | editar código-fonte]

Os utensílios de metal passaram a ser mercadorias muito apreciadas. Como sua produção exigia, além do domínio das técnicas de fundição, o conhecimento dos locais onde o metal poderia ser encontrado. Essa tarefa, naturalmente, não estava ao alcance de todos. A valorização, cada vez maior, destes instrumentos levou à sua utilização como moeda e ao aparecimento de réplicas de objetos metálicos, em pequenas dimensões, que circulavam como dinheiro. É o caso das moedas faca e chave que eram encontradas no Oriente e do talento, moeda de cobre ou bronze, com o formato de pele de animal, que circulou na Grécia e em Chipre.

Moedas antigas[editar | editar código-fonte]

Dobra de 8 Escudos.
Surgem, então, no século VII a.C., as primeiras moedas com características das atuais: são pequenas peças de metal com peso e valor definidos e com a impressão do cunhooficial, isto é, a marca de quem as emitiu e garante o seu valor. São cunhadas na Grécia moedas de prata e, na Lídia,[3] são utilizados pequenos lingotes ovais de uma liga de ouroe prata chamada electro.
As moedas refletem a mentalidade de um povo e de sua época. Nelas podem ser observados aspectos políticos, econômicos, tecnológicos e culturais. É pelas impressões encontradas nas moedas que conhecemos, hoje, a efígie de personalidades que viveram há muitos séculos. Provavelmente, a primeira figura histórica a ter sua efígie registrada numa moeda foi Alexandre, o Grande, da Macedônia, por volta do ano 330 a.C. No princípio, as peças eram fabricadas por processos manuais muito rudimentares e tinham seus bordos irregulares, não sendo, como hoje, peças absolutamente iguais umas às outras.

Ouro, prata e cobre[editar | editar código-fonte]

Os primeiros metais utilizados na cunhagem de moedas foram o ouro e a prata. O emprego destes metais se impôs, não só pela sua raridade, beleza, imunidade à corrosão e valor econômico, mas também por antigos costumes religiosos. Nos primórdios da civilização, os sacerdotes da Babilônia, estudiosos de astronomia, ensinavam ao povo a existência de estreita ligação entre o ouro e o Sol, a prata e a Lua. Isto levou à crença no poder mágico destes metais e no dos objetos com eles confecionados. A cunhagem de moedas em ouro e prata se manteve durante muitos séculos, sendo as peças garantidas por seu valor intrínseco, isto é, pelo valor comercial do metal utilizado na sua confeção. Assim, uma moeda na qual haviam sido utilizados vinte gramas de ouro, era trocada por mercadorias neste mesmo valor. Durante muitos séculos os países cunharam em ouro suas moedas de maior valor, reservando a prata e o cobre para os valores menores. Estes sistemas se mantiveram até ao final do século passado, quando o cuproníquel e, posteriormente, outras ligas metálicas passaram a ser muito empregados, passando a moeda a circular pelo seu valor extrínseco, isto é, pelo valor gravado em sua face, não dependendo do metal nela contido. Com o advento do papel-moeda a cunhagem de moedas metálicas ficou restrita a valores inferiores, necessários para troco. Dentro desta nova função, a durabilidade passou a ser a qualidade mais necessária à moeda. Surgem, em grande diversidade, as ligas modernas, produzidas para suportar a alta rotatividade do numerário de troco.
Primeiro bilhete de banco, emitido pelo Banco do Brasil em 1810.

Papel Moeda[editar | editar código-fonte]

Na Idade Média, surgiu o costume de se guardarem os valores num ourives, pessoa que negociava objetos de ouro e prata. Este, como garantia, entregava um recibo. Com o tempo, esses recibos passaram a ser utilizados para efetuar pagamentos, circulando de mão em mão e dando origem ao papel-moeda.
No Brasil, os primeiros bilhetes de banco, precursores das cédulas atuais, foram lançados pelo Banco do Brasil, em 1810. Tinham seu valor preenchido à mão, tal como, hoje, fazemos com os cheques.
Com o tempo, da mesma forma ocorrida com as moedas, os governos passaram a conduzir a emissão de cédulas, controlando as falsificações e garantindo o poder de pagamento. Atualmente quase todos os países possuem seus bancos centrais, encarregados das emissões de cédulas e moedas. A moeda de papel evoluiu quanto à técnica utilizada na sua impressão. Hoje a confeção de cédulas utiliza papel especialmente preparado e diversos processos de impressão que se complementam, dando ao produto final grande margem de segurança e condições de durabilidade.

Dinheiro e economia[editar | editar código-fonte]

O dinheiro é um dos tópicos de estudo centrais na economia e está numa ligação implícita com o campo das finanças. A quantidade de dinheiro numa dada economia diretamente afeta fenômenos como a inflaçãoe a taxa de juros. Uma crise monetária pode ter efeitos significativos, particularmente se ela levar a uma falência generalizada tal que resulte na adoção de economia de trocas.
A economia moderna também enfrenta a dificuldade em decidir o que exatamente dinheiro é. (veja suprimento de dinheiro).

Características essenciais[editar | editar código-fonte]

O dinheiro tem as seguintes características:
  1. Deve ser um meio de troca;
  2. Deve ser uma unidade contábil;
  3. Deve servir para acumular valores.

Meio de troca[editar | editar código-fonte]

Fotografia de várias moedas.
Quando um objeto tem seu principal uso como intermediário de trocas—recorre-se a ele para trocar coisas diferentes—tem essa propriedade. Esta característica permite ao dinheiro ser usado como padrão de trocas adiadas, uma ferramenta para saldar débitos.

Unidade contábil[editar | editar código-fonte]

Quando o valor de um bem é frequentemente usado para comparar ou medir o valor de outros bens, ou quando o valor é utilizado para especificar débitos, então esse bem funciona como unidade contábil.
Um débito ou uma dívida não podem servir como unidade contábil porque seu valor é especificado em comparação com alguma referência valorativa externa, alguma outra unidade contábil determinada.

Acumular valores[editar | editar código-fonte]

Antigo denário Romano.
Quando um objeto é adquirido primariamente para acumular valores a serem utilizados em negócios futuros, então está servindo para acumular valores. Por exemplo, uma marcenaria pode manter um inventário de madeira que possui um valor de mercado. Da mesma forma pode manter dinheiro em caixa que tem também valor de mercado. Ambos representam uma reserva de valores porque podem ser convertidos em outros bens no futuro. A maioria dos bens não-perecíveis têm essa característica.
Muitos bens ou símbolos possuem as três características enumeradas acima, porém apenas o dinheiro possui as três juntas.
Além disso, para funcionar bem numa economia o dinheiro deve ter as seguintes características adicionais:
  • Ter valor estável
  • Ser de difícil falsificação
  • Ser facilmente repartível e transportável
  • Deve ter um valor padronizado e reprodutível (duas representações de dinheiro devem ser idênticas, caso refiram-se ao mesmo valor)

Formas modernas de dinheiro[editar | editar código-fonte]

Quando utilizado anonimamente, o método mais comum de uso do dinheiro é através de cédulas bancárias ou moedas, ou ainda cartões com valor pré-pago.
Há também o uso do dinheiro com registro financeiro, também chamado de conta corrente (ou também conta bancária). Nesse caso, os métodos mais comuns são os chequescartões de crédito e de débito, edinheiro digital.

Cultura[editar | editar código-fonte]

Cquote1.svgDinheiro compra tudo, até amor verdadeiro!Cquote2.svg
— Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro.
O dinheiro influencia a arte de diversas formas. Na música, podem-se destacar alguns exemplos:

Perspectiva Psicológica[editar | editar código-fonte]

O dinheiro é um grande símbolo de poder.
O dinheiro foi considerado durante muito tempo como de domínio exclusivo da Economia.[4] Para Furnham e Argyle, o tema dinheiro pertencia tradicionalmente aos economistas o que manteve os psicólogos afastados. No entanto a conjuntura econômica mundial despertou o interesse da psicologia por esse tema. Iniciou-se estudos para uma clara definição do dinheiro.
Segundo Snelders,[5] trata-se de um conceito polimorfo, ou seja não há uma clara definição; as definições são criadas a partir de experiências individuais nomeadas com base em famílias de semelhanças.
Essas famílias de semelhanças possuem algumas propriedades já estabelecidas, que são:
  • Tipicidade: as pessoas conseguem classificar a categoria conforme a tipicidade e há uma concordância subjectiva clara quanto a essas classificações.
  • Intensidade: quanto mais típico algo é de uma determinada categoria, mais as pessoas concordam que ela pertence àquela categoria.
  • Similaridades: Quanto mais similares as instancias de uma categoria, maior será a concordância quanto a categoria que pertence.

Instrumentos de mensuração do significados do dinheiro[editar | editar código-fonte]

Diferencial Semântico Modificado (DSM)[editar | editar código-fonte]

Wernimont e Fitzpatrick (1972) reportaram o primeiro instrumento para mensurar o significado do dinheiro, criado a partir do pressuposto adoptado pelos autores, de que o significado do dinheiro seria construído pelos indivíduos com base em diferentes histórias de aprendizagem.
A escala no formato de Diferencial Semântico Modificado (DSM) foi constituída por 40 pares de adjetivos atribuídos ao dinheiro. Sendo constituída por 5 componentes como:
  • Fracasso e vergonha.
  • Aceitabilidade social.
  • Atitude ora-ora (o dinheiro foi analisado como algo sem importância).
  • Pecado moral (princípios morais).
  • Segurança confortável (significado positivo atribuído ao dinheiro).

Escala de atitudes quanto ao dinheiro (MAS)[editar | editar código-fonte]

Yamauchi e Templer (1982) desenvolveram uma escala de atitudes quanto ao dinheiro tendo como base teórica a literatura clínica psicanalítica. Baseando-se nos três domínios psicológicos do dinheiro, que representariam as três fases de desenvolvimento propostas por Freud: oral, anal e fálica.
Foram representados pelos domínios:
  1. Segurança, relacionado a conceitos como: otimismo, conforto; e seu reverso: pessimismo, insegurança e insatisfação.
  2. Retenção: parcimônia, avareza e personalidade obsessiva.
  3. Poder-prestígio, composto por status, importância, superioridade e aquisição.
Foram gerados 62 itens que refletiam os três domínios citados.

Escala ética do dinheiro (EAD)[editar | editar código-fonte]

Tang (1992) utilizou a hierarquia das necessidades de Maslow e as escalas de Wernimont e Fitzpatrick, Yamauchi e Templer e Furnham para criar a Escala ética do dinheiro.
Essa escala procurava mensurar as atitudes quanto ao dinheiro em ambientes organizacionais e averiguar a relação das atitudes quanto ao dinheiro com variáveis relacionadas ao trabalho. Foram formulados cinquenta itens com uma escala Likert de sete pontos.

Escala de Significado do Dinheiro (ESD)[editar | editar código-fonte]

Moreira (2000) criou um instrumento para mensuração do significado do dinheiro, que apresentasse características mais confiáveis.
Contemplando as seguintes dimensões :
  • Positivas : desenvolvimento sociocultural, prestígio, utilitarismo, estabilidade e prazer.
  • Negativas: desigualdade social, dominação, conflito e preocupação.

Referências

  1. Ir para cima Origem e Evolução do Dinheiro Banco Central do Brasil. Visitado em 17 de janeiro de 2012.
  2. Ir para cima História do Dinheiro Canal Kids. Visitado em 17 de janeiro de 2012.
  3. Ir para cima Origem do dinheiro Casa da Moeda do Brasil. Visitado em 17 de janeiro de 2012.
  4. Ir para cima Gusmán, 2000
  5. Ir para cima Varieties of money: Experts' and non-experts' typicality judgments, (1996) Journal of Economic Psychology, 17 (3), pp. 403-413.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Barracho,Carlos. Lições de psicologia Económica. Instituto Piaget. Lisboa. 2001

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
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O que é o dinheiro, como ele surge e como deve ser gerenciado
por , sexta-feira, 15 de junho de 2012



Salt-and-money-image-getty.jpgNos tempos atuais, fomos doutrinados a crer que pequenos pedaços retangulares de papel são a exata definição de dinheiro, e que o governo — mais especificamente seu banco central — é sua única fonte possível.  Para se discutir honestamente como é possível obter uma moeda forte, é necessário antes entender como surgiu o dinheiro e como se estabeleceu nosso atual costume monetário.
No início, era cada um por si.  Cada indivíduo comia ou vestia apenas aquilo que ele fosse capaz de coletar ou caçar.
E então surgiu o escambo, que foi o primeiro avanço.  Se você estivesse em posse de alguns quilos extras de carne, e o seu vizinho possuísse uma quantidade excedente de pele de animal, vocês dois poderiam incorrer em uma troca direta.  Se alimentos, água, roupas e ferramentas simples são os únicos bens disponíveis no mercado, o escambo acaba sendo um meio relativamente eficiente de troca — você sempre poderá encontrar alguém que possui aquilo que você quer e que quer aquilo que você possui.
Porém, tão logo surgiu um esquema básico de produção e manufatura, e a prosperidade começou a aumentar, o escambo se tornou uma prática inadequada.  Imagine que você é um caçador e quer adquirir uma cama, mas o único produtor de camas da cidade é um vegetariano.  O que você pode fazer neste caso?  Você primeiro teria de descobrir o que o produtor de camas aceitaria em troca da cama (talvez tofu), e então teria de encontrar alguém que possuísse tofu e estivesse disposto a trocar por carne.  Se você não conseguisse encontrar tal pessoa (o produtor de tofu quer um chapéu em troca), você teria de procurar por uma quarta pessoa (alguém que quisesse carne e que possuísse o chapéu que o produtor de tofu quisesse), ou tentar convencer o produtor de camas vegetariano a aceitar sua carne para, algum tempo depois, tentar trocá-la por algum outro bem.
A carne, no entanto, estraga com o tempo, de modo que o produtor de camas teria de se livrar dela rapidamente.  Consequentemente, sendo você incapaz de conseguir arrumar algum bem que o produtor de camas queira consumir, você decide trocar sua carne por um pouco de sal.  Ato contínuo, você se aproxima do produtor de camas e diz: "Olha só, eu sei que você não quer sal, mas pense em todas as outras pessoas que querem.  Elas utilizam sal para preservar suas carnes e para dar mais sabor às suas sopas.  E o sal é imperecível, de modo que você pode armazená-lo pelo tempo que quiser.  E se, quando o vendedor de tofu vier à cidade, e ele não quiser sal, você poderá explicar a ele exatamente isso que acabei de explicar para você — que ele poderá utilizar o sal para comprar algo que ele queira futuramente."
Se você e o produtor de camas chegarem a um acordo, você acabou de inventar o dinheiro.  Organicamente, mais pessoas na sua comunidade começarão a utilizar o sal como meio de pagamento, mesmo que elas não tenham a intenção de consumi-lo, pois sabem que outras pessoas irão aceitá-lo como meio de troca.
Porém — e isso é muito importante —, o valor do sal-dinheiro não depende exclusivamente de as outras pessoas aceitarem-no como meio de pagamento.  Se, por algum motivo, as pessoas pararem de aceitar sal como meio de pagamento, você ainda assim poderá utilizar o sal como... sal.  O sal não perdeu suas funções originais.
O sal já foi utilizado como dinheiro e mostrou ser uma ótima moeda, especialmente antes da invenção da refrigeração, pois era amplamente demandado, divisível até o nível granular, muito portátil e transportável, fácil de ser pesado, e podia ser facilmente testado contra falsificações: bastava prová-lo com seu paladar.  Os romanos utilizaram o sal como dinheiro.
No entanto, o fato de o sal ter passado a servir como dinheiro não significava que não poderiam surgir outras formas de dinheiro em circulação.  Folhas de tabaco também poderiam ser amplamente aceitas como meios de pagamento, assim como o ouro ou a prata.
A maior invenção da história?
A questão é que o dinheiro surgiu naturalmente na sociedade, e surgiu como uma maneira de auxiliar as transações econômicas voluntárias.  Foi uma das maiores invenções da humanidade.  O dinheiro não apenas facilitou às pessoas adquirirem o que queriam, como também tornou o ato de poupar muito mais possível — você podia agora acumular o dinheiro excedente para gastá-lo em um momento posterior.
Embora poupar seja hoje um ato vilipendiado pelas elites políticas, trata-se de um elemento essencial para o progresso econômico.  Ao facilitar às pessoas o ato de poupar, o dinheiro efetuou duas medidas cruciais.  Primeiro, ele inspirou mais diligência e empreendedorismo: havia agora um incentivo para se trabalhar mais duro para se auferir em um dia mais do que você poderia gastar em um dia.  Segundo, a poupança possibilitou a empreendedores ambiciosos fazer grandes investimentos em capital: máquinas que economizavam trabalho humano, armazéns e transportes.
Se o poupador não tivesse grandes planos em mente para o seu dinheiro, ele ainda assim poderia fazer com que ele fosse produtivo: bastaria emprestá-lo para terceiros.  Financiamento era algo praticamente impossível sem dinheiro.  É claro que você poderia dar um porco para o seu vizinho este ano em troca de um porco e de uma galinha no ano seguinte, mas haveria muito mais espaço para contendas. "Este porco não é tão saudável quanto o porco que dei a você ano passado."
Já um dinheiro-commodity utiliza medidas universais e objetivas, como peso, para mensurar sua qualidade.  Logo, não havendo espaço para variações de qualidade, você pode emprestar seu dinheiro tendo a confiança de que, o que você receberá em troca no futuro, terá a mesma qualidade que você emprestou.
O dinheiro também tornou a especialização algo mais fácil.  Se você fosse realmente bom em algo — por exemplo, fabricar pregos (utilizando o famoso exemplo de Adam Smith) —, você poderia agora ganhar a vida apenas fabricando pregos.  Sem o dinheiro, alguém que passou o dia inteiro fabricando pregos teria de encontrar (a) alguém com comida em excesso que quisesse pregos, (b) alguém com abrigo sobrando que quisesse pregos, (c) alguém com excesso de roupas que também quisesse pregos naquele momento, e por aí vai.
Porém, quando o dinheiro é introduzido, o vendedor de pregos necessita encontrar apenas (a) pessoas com dinheiro que queiram pregos, e (b) diferentes pessoas que possuam os bens que o vendedor de pregos queira comprar e que queiram dinheiro em troca.  Facilitar a especialização cria eficiências.  A especialização permite a divisão do trabalho, de modo que as pessoas passam a agir de acordo com suas habilidades e seus interesses.  A produtividade aumenta.  De incontáveis maneiras, o dinheiro aperfeiçoa a sociedade.
Moedas concorrenciais
No passado, diferentes tipos de dinheiro-commodity concorriam entre si.  O sal possuía suas vantagens, mas também apresentava desvantagens — além de você ter de mantê-lo seco, era fácil perder alguma porção.  Em Roma, a elevação do nível dos oceanos foi tornando muito mais difícil a obtenção de sal ao longo dos anos.
Enquanto isso, o ouro ia continuamente apresentando várias vantagens.  Era fácil de ser armazenado.  Não deteriorava.  Assim como o sal, era de fácil divisibilidade, e também fácil de ser modelado em formatos diferente: você podia criar blocos ou moedas de diferentes pesos ou denominações, os quais podiam ser padronizados.  Ele não enferrujava, não sujava e não sofria outras reações indesejadas ao entrar em contato com produtos químicos.
Como qualquer dinheiro verdadeiro, surgido no mercado, o ouro possui utilidade própria, o que sempre irá lhe garantir algum valor.  Majoritariamente, pensamos em seu valor decorativo — em praticamente qualquer cultura, o ouro é considerado algo bonito.  As mulheres adoram ouro, e satisfazer as fantasias femininas é universalmente considerado algo bom.  O ouro possui uso industrial devido à sua resistência à corrosão e à facilidade com que pode ser reduzido a placas extremamente finas.
O ouro também é raro o suficiente para ser valioso, mas ao mesmo tempo abundante o suficiente para ser de ampla circulação.  Sua oferta cresce, mas nunca a taxas altas.
Nenhuma autoridade teve de declarar que o ouro era dinheiro.  Ele surgiu espontaneamente como meio de troca, e em vários casos venceu a concorrência contra outras moedas.  Ele nem sempre venceu à custa da exclusão de todos os outros tipos de dinheiro, mas foi provavelmente o mais bem-sucedido dinheiro que já existiu, graças não a algum decreto superior, mas sim aos seus próprios atributos.
E isso é extremamente importante: o dinheiro não vem do governo; ele surge na própria sociedade.

Peter Schiff 
é o presidente da Euro Pacific Capital e autor dos livros The Little Book of Bull Moves in Bear MarketsCrash Proof: How to Profit from the Coming Economic Collapse e How an Economy Grows and Why It Crashes.  Ficou famoso por ter previsto com grande acurácia o atual cataclisma econômico.  Veja o vídeo.  Veja também suapalestra definitiva sobre a crise americana -- com legendas em português.





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