domingo, 28 de agosto de 2016

ANTROPOLOGIA

Antropologia (do grego άνθρωπος, transl. anthropos, "homem", e λόγος, logos, "razão"/"pensamento") é a ciência que se ocupa em estudar o homem enquanto espécie primata e a humanidade ou seja seus símbolos e produtos culturais. Uma ciência que conquistou seu lugar evoluindo de relatos de vivências e descrições de costumes feitas por viajantes, afirmando a necessidade da pesquisa de campo e aprofundamento do conjunto de descrições etnográficas (corpus etnograficos) de todos os povos do mundo que vinham se acumulando (Laplatine) [1]. Distinguindo-se da sociologia e da economia política as denominadas ciências humanas e mesmo da psicologia social enquanto ciência dos costumes e estilos de vida, a antropologia dialoga com essas ciências afirmando seus próprios métodos e referencial teórico de diversas procedências. A psicanálise se inclui entre as psicoterapias, e em relação à antropologia deve-se considerar a "via de mão dupla", tanto desta para a antropologia como da antropologia para a psicanálise.
A psicanálise, também, pode ser descrita como um procedimento especializado de psicoterapia, uma teoria da personalidade além de uma teoria da cultura ou filosofia sobre a natureza humana, onde residem suas maiores contribuições à antropologia. Segundo Freud, a psicanálise cresceu num campo muitíssimo restrito. No início, tinha apenas um único objetivo — o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido como doenças nervosas ‘funcionais’, com vistas a superar a impotência que até então caracterizara seu tratamento médico e possuía desde o início a expectativa de participar do desenvolvimento cultural como um fermento significativo auxiliar ao aprofundamento de nosso conhecimento do mundo. [2]
Apesar das severas críticas sofridas por alguns setores influentes da antropologia a exemplo de Alfred Louis Kroeber (1876-1960) [3] o livro "Totem e tabu, algumas concordâncias entre a vida dos homens primitivos e dos neuróticos", (1913) o primeiro trabalho de Freud, fora do âmbito da neurologia e clínica, teve um significativo impacto nas "ciências do homem" instituindo-se como um marco da relação entre essas disciplinas.
Saxman Totem Park, Alaska
Géza Róheim (1891-1953) um geógrafo e antropólogo húngaro, posteriormente psicanalista, considerava o referido livro um grande marco na história da antropologia, equivalente segundo ele equivalente às obras de Edward Burnett Tylor (1832-1917), "Primitive Culture" e Sir James George Frazer (1854-1941) "The Golden Bough". [4]aliás, consta que o próprio S. Freud considerava esses textos publicados inicialmente na revista Imago (editada por ele) e posteriormente reunidos no livro "Totem e tabu", juntamente com seu outro livro, "A interpretação dos sonhos" (1900), as produções básicas de sua obra. Paulo Cesar Souza, historiador e atual tradutor das obras completas de Freud, em nota de pé de página de sua tradução de Totem e Tabu [5] recomenda os textos de Marvin Harris. "The rise of anthropological theory", 1968 (cap. 16) [6] e Edwin R. Wallace IV, "Freud and anthrological theory", 1983 para uma avaliação crítica dos ensaios antropológicos de Freud.

Antropologia e psicologia[editar | editar código-fonte]

Tal como referido no início, tradicionalmente na antropologia divide-se em antropologia cultural e antropologia física, cada uma destas com suas contribuições específicas para o estudo da mente e comportamento humano. Em seu processo de construção abrigou diversas correntes de pensamento onde, como dito, as contribuições da psicanálise são relevantes. Na antropologia cultural há de se considerar as aplicações da antropologia às emoçõessaúde e à psicologia enquanto ciência, onde teoricamente, mas não sem conflitos, a psicanálise se insere. Nessa última um ramo inquestionavelmente associado à psicanálise possui uma interface interdisciplinar com o segmento da antropologia que estuda a interação de processos simbólico-culturais e mentais ou cognitivos e uma área também comum à psicologia do desenvolvimento, que também analisa a forma como se realiza a socialização da criança dentro de um determinado grupo cultural. Essa interdiscplinariedade nos permite compreender melhor como a cultura modela a cognição humana, a percepção, ou a emoção, sexualidade, motivação e saúde mental.
Nesse contexto, às contribuições de Bronislaw Malinowski (1884 — 1942) foram de grande importância. Ao pesquisar os nativos da Ilha de Trobriand, mais precisamente, como se desenvolvia a sexualidade entre os povos Trobriandeses, Malinowski concluiu que as crianças desenvolviam sua sexualidade de maneira mais livre, menos repressora. Dessa forma, ele propôs estudar em pesquisa de campo, o que Freud afirmava com relação ao surgimento da cultura. Segundo Malinowski, Freud concebia que o aparecimento da cultura surge a partir do momento em que ocorre a repressão à sexualidade e a criança se depara com os simbolismos culturais que representam a família, mas segundo ele, não necessariamente na forma universal do "Complexo de Édipo" pois, como elaborou posteriormente, [7] sofre influências dos padrões de parentesco, da religião entre outros fatores. Malinowski contribuiu também de maneira significativa à antropologia com um método pioneiro de investigação: a etnografia.
Outras escolas da psicologia também possuem uma interface com a antropologia e disputam o domínio da ciência dos costumes da moral e da conduta humana, tal como compreendida antes do séc. XX, a saber por obras de Immanuel Kant, (1724 — 1804) e a persistência de algumas dessas concepções na esfera jurídica. Um bom exemplo, sem dúvida originado a partir das contribuições de Burrhus Frederic Skinner(1904 — 1990) é o esboço de uma antropologia comportamental proposta por Richard Malott [8] no seu artigo "Comportamento governado por regras e antropologia comportamental" (1988) a partir das contribuições de Marvin Harris (1907-2002) sobre o materialismo cultural [9] analisando os costumes indianos, o culto à vaca sagrada [10] e as regras de controle do comportamento, bem como os diversos tipos decontingências que as mantém.
Para Marcel Mauss, (1872-1950), praticamente o fundador da etnologia francesa, tanto a questão da independência relativa entre fatos de diversas ordens biológicas e psicológicas e fatos sociais como a relação entre os fatos psíquicos e fatos materiais da sociedade devem ser investigados. Para esse autor os fenômenos psicológicos atuam como engrenagens (ainda não dimensionadas) entre o aparelho biológico / fisiológico e a ordem social. Entre as contribuições da sociologia que se distingue da psicologia coletiva por delimitar a morfologia (demográfica, estatística e histórica) do social em vez de lidar com abstração da coletividade, ou seja, da consciência (inspiração inconsciente) do grupo sem o seu substrato material e concreto.
Entre as principais contribuições das ciências sociais à psicologia segundo esse autor está a contextualização dos símbolos míticos e morais, um caminho já trilhado por Wilhelm Wundt (1832-1920) em sua Volkerpsychologie (Psicologia dos povos) e pelo próprio Sigmund Freud (1856 – 1939) em seu livro ‘Totem e tabu, alguns pontos de concordância entre a vida mental dos selvagens e dos neuróticos’ como vimos, apesar das ressalvas especialmente contra a aproximação dos ritos e crenças religiosas à neurose. Por outro lado, a noção de psicose, segundo Mauss, é uma importante contribuição da psicologia às ciências sociais, esclarece alguns fenômenos coletivos como alucinações e sonhos coletivos associados ao fanatismo, vendeta em grupo, mitomania, loucura judiciária, alucinações do culto funerário etc. Destaca ainda como contribuições da psicologia às ciências sociais as noções de astenia e vigor mentalatividade simbólica e a noção de instinto [11]

Contribuições da psicanálise[editar | editar código-fonte]

Apesar de alguns autores como Alexander e Selesnick [12] situarem a psicanálise na perspectiva de desenvolvimento da história da psiquiatria a maioria dos historiadores da psicologia situam esta no início da evolução da psicologia clínica. Goodwin [13], Hothersall [14]
Esta escola é baseada na idéias de Sigmund Freud e outros psicanalistas acerca dos fenômenos sociais e culturais. Os adeptos dessa abordagem freqüentemente utilizam técnicas que exploram a relação entre a infância e a personalidade adulta – é clássica a comparação entre os ditos selvagens e primitivos, os neuróticos, psicóticos e as crianças utilizando (no caso de Freud) os relatos etnográficos da época especialmente os citados James Frazer, Edward B, Tylor e William R. Smith (1846 – 1894) entre outros. A partir dos trabalhos propostos por Freud os psicanalistas estudam a influência e origem dos símbolos culturais (incluindo mitos, sonhos e rituais) comparando-os com os resultados da aplicação da técnica psicanalítica.
Entre os trabalhos de Freud selecionados pelo editor das edições standard de suas obras completas, James Strachey, cerca de 27 ensaios e/ou livros escritos entre 1907 e 1940, pode-se destacar:
Totem Park pole 1.jpg
  • 1907 – Atos obsessivos e práticas religiosas.
  • 1908 – Ética sexual civilizada e as modernas doenças nervosas.
  • 1912 – Totem e tabu, alguns pontos de concordância entre a vida mental dos selvagens e dos neuróticos
  • 1913 – A ocorrência nos sonhos de material proveniente dos contos de fadas.
  • 1916 – Um paralelo mitológico a uma obsessão visual.
  • 1918 – O tabu da virgindade
  • 1921 – Psicologia de Grupo e a Análise do Ego.
  • 1927 – O futuro de uma ilusão
  • 1930 – O mal estar da civilização.
  • 1932 – A aquisição e o controle do fogo
  • 1938 – Uma nota sobre o anti-semitismo
  • 1939 – Moisés e o monoteísmo
Entre outros psicanalistas que podem ser considerados parte desta escola estão:
Géza Roheim (1891 –1953), primeiro psicanalista com específicos trabalhos sobre psicanálise e antropologia (A origem e função da cultura (1945) e Psicanálise e antropologia (1953)) De acordo com Souza [15] é na sua obra «Psychoanalysis and Anthropology» (1953) que Róheim desenvolve a sua noção de cultura, trabalhada na sua diferença quer contra a noção filogenética de cultura proposta por Freud em «Totem e Tabu», quer contra a noção de cultura proposta pela antropologia culturalista. Em termos simples, podemos dizer que, para Róheim, a cultura humana é a conseqüência da infância prolongada da espécie humana, e que as áreas culturais decorrem da situação infantil típica que reina em cada uma das culturas humanas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário