terça-feira, 31 de janeiro de 2017

RIO GRANDE DO SUL

Rio Grande do Sul é uma das 27 unidades federativas do Brasil.[7] Localizado na Região Sul,[8] possui como limites o estado de Santa Catarina ao norte, o oceano Atlântico ao leste, o Uruguai ao sul e a Argentina a oeste.[9] Sua capital é o município de Porto Alegre.[10] As cidades mais populosas são: Porto Alegre, Caxias do SulPelotasCanoas e Santa Maria.[11] O relevo é constituído por uma extensa baixada, dominada ao norte por um planalto.[12] AntasUruguaiTaquariIjuíJacuíIbicuíPelotas e Camaquã são os rios principais.[12] O clima é subtropical[12] e a economia do Estado se baseia na agricultura (sojatrigoarroz e milho), na pecuária e na indústria (de couro e calçadosalimentíciatêxtilmadeireirametalúrgica e química).[13]
Em 1627, jesuítas espanhóis criaram missões jesuíticas próximas ao rio Uruguai, mas foram expulsos pelos portugueses em 1680, quando a Coroa Portuguesa resolveu assumir seu domínio, fundando a Colônia do Sacramento. Os jesuítas espanhóis estabeleceram, em 1682, os Sete Povos das Missões. A primeira redução jesuítica dos Sete Povos foi São Francisco de Borja (atual cidade de São Borja), fundada em outubro de 1682. Os portugueses chegaram em 1737 com uma expedição militar de José da Silva Paes, iniciando com o Forte Jesus Maria e José a cidade do Rio Grande, primeira cidade do atual Estado do Rio Grande do Sul, quando tomou posse da lagoa Mirim, impedindo a partir de então a entrada dos invasores da Coroa Espanhola. A partir de 1740 há uma organização para a vinda de colonizadores açorianos (território insular de Portugal) para o a região. Em 1742, os colonizadores fundaram a vila de Porto dos Casais, depois chamada Porto Alegre. A região sob controle da Coroa Portuguesa em 1760, sob a administração do Rio de Janeiro, na terra recuperada do domínio espanhol e já ocupada de fato por colonizadores portugueses. Porém as lutas pela posse das terras, entre portugueses e espanhóis continuaram, e somente tiveram fim em 1801, quando os próprios gaúchos dominaram os Sete Povos, incorporando-os ao seu território.
É criada em 19 de setembro de 1807 a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. A nova capitania, que tinha estatuto de capitania-geral com capital na cidade do Rio Grande, abrangia um território de limites pouco precisos, em terras antes sob domínio espanhol e já ocupada de facto por gaúchos , militares e, no final do século XVIII, por colonos portugueses, sobretudo açorianos, que lá receberam glebas de terra e sesmarias. O primeiro capitão-general da capitania foi Diogo de Sousa. Em 28 de fevereiro de 1821 torna-se a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, que viria a se tornar o atual Estado do Rio Grande do Sul, após a Proclamação da República do Brasil.
Grupos de imigrantes italianos e alemães começaram a chegar a partir de 1824. A sociedade estancieira passou então a coexistir com a pequena propriedade agrícola, diversificando a produção. Durante o século XIX, o Rio Grande do Sul foi palco de revoltas federalistas, como a Guerra dos Farrapos (1835-45), e participou da luta contra Rosas (1852) e da Guerra do Paraguai (1864-70). As disputas políticas locais foram acirradas no início da República e só no governo de Getúlio Vargas (1928) o Estado foi pacificado.[14]
É o estado mais meridional (ao sul) da federação, conta com o quarto maior PIB[15] - superado apenas por São PauloRio de Janeiro e Minas Gerais, o quinto mais populoso[16] e com o sexto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais elevado do país. O estado possui papel marcante na história do Brasil, tendo sido palco da Guerra dos Farrapos, a mais longa guerra civil do país. Sua população é em grande parte formada por descendentes de portuguesesalemãesitalianosafricanos e indígenas. Em pequena parte por espanhóispoloneses e franceses, dentre outros imigrantes.[17]
Em certos locais do estado, como a Serra Gaúcha e a região rural da metade sul, ainda é possível ouvir dialetos da língua italiana (talian) e do alemão (HunsrückischPlattdeutsch).[17] Esse estado brasileiro originalmente teve sua economia baseada na pecuária bovina que se instalou no Sul do Brasil durante o século XVII com as missões jesuíticas na América, e posteriormente expandiu-se aos setores comercial e industrial, especialmente na metade norte do Estado.[18] O Rio Grande do Sul foi apontado em 2014 pelo The New York Times como o "lugar com mais traços europeus do Brasil"[19]. Embora o estado esteja em situação de decadência econômica acentuada[20], é onde há o maior número de idosos e a segunda maior expectativa de vida[21][22] e onde os trabalhadores são mais bem remunerados[23], tendo uma das menores taxas de analfabetismo[24]violência[21] , e mortalidade infantil do país[25]. Mesmo com bons indicadores sociais, o Rio Grande do Sul sofre com a disparidade econômica entre a metade norte (considerada rica e industrial) e a metade sul (considerada pobre e agrária)[26].

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O nome do estado originou-se de uma série de erros e discordâncias cartográficas, quando se acreditava que a Lagoa dos Patos fosse a foz do Rio Grande, que já era demonstrado em mapas neerlandeses, décadas antes da colonização portuguesa na região. Pelo que se sabe até agora, o primeiro cartógrafo dos Países Baixos a registrar a Lagoa dos Patos, ainda considerada o Rio Grande, foi Frederick de Wit, em seu atlas de 1670. Já o primeiro registro cartográfico feito por um neerlandês a mostrar o suposto rio com um formato próximo ao que é conhecido hoje da referida lagoa foi Nikolaus Visscher, em 1698. Apesar de ele não ter sido o primeiro a mencionar os índios Patos que habitavam suas margens e boa parte do litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, foi ele quem associou o nome à lagoa. Por volta de 1720, açorianos vindos de Laguna vieram à região de São José do Norte buscar o gado cimarrón vindo das missões, possibilitando a posterior fundação da cidade de Rio Grande, no ano de 1737. A partir do nome do município, surgiu também o nome do estado do Rio Grande do Sul.[carece de fontes]
Os habitantes naturais do Rio Grande do Sul são denominados gaúchosrio-grandenses-do-sul ou sul-rio-grandenses.[27] O gentílico no masculino do singular é gaúcho e no feminino do singular gaúcha.[28] É uma palavra oriunda do espanhol gaucho[nota 1], um adjetivo que, aplicado a pessoas pode significar "nobre, valente e generosa" ou "camponês experimentado em pecuária tradicional", ou ainda "velhaco, astuto, dissimulado ou ardiloso experiente",[30] mas também pode ter o sentido de "vagabundo, contrabandista, desregrado e desprivilegiado".[31]

História[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: História do Rio Grande do Sul

Povos indígenas[editar | editar código-fonte]

Um índio charrua retratado por Debret.
Na época do Descobrimento do Brasil, a região que hoje forma o Rio Grande do Sul era habitada pelos índios minuanoscharruas e caaguaras, que viveram há 12 mil anos a.C.[32][33] Eram bons ceramistas e, na caça, usavam as boleadeiras, até hoje um dos instrumentos do peão gaúcho.[34][35]
Essas tribos viveram muito tempo sem contato com os brancos colonizadores.[35] As disputas entre Portugal e Espanha sobre os limites de suas possessões na América fizeram com que a região só fosse ocupada no século XVII.[36] Os padres jesuítas espanhóis foram os primeiros a se estabelecer no local.[35][37]

Ocupação[editar | editar código-fonte]

As peculiaridades geográficas do atual estado do Rio Grande do Sul, dividido em 11 diferentes regiões fisiográficas,[38] influíram para retardar a ocupação da terra, a leste, pelo conquistador europeu.[39][40] Outro fator negativo foi o Tratado de Tordesilhas, de 1494, que dividiu a soberania sobre os descobrimentos entre Portugal e Espanha por um meridiano ideal.[41] No caso do Brasil, o meridiano estendia-se das proximidades da ilha de Marajó até a baía da Laguna, em Santa Catarina.[41][42][42][43]
Ante as dúvidas surgidas sobre o ponto exato em que deveria passar a linha convencionada e achando-se o rio de São Pedro justamente na zona cuja confrontação se discutia, nenhuma daquelas duas nações se apressou a ocupá-lo, pelo temor de novas dificuldades diplomáticas. Contudo, em princípios do século XVII a Espanha penetrava na margem esquerda do Rio Uruguai, por intermédio dos jesuítas que, a partir do Paraguai, estabeleceram suas reduções em vários pontos, chegando mesmo às cercanias da futura cidade de Porto Alegre e, de modo geral, senhoreando-se de todo o oeste rio-grandense.[42][43]
A seguir, os bandeirantes destruíram a província do Guairá, desceram à província do Tape, no coração do Rio Grande, e à província do Uruguai, desbaratando as aldeias e aprisionando os índios, que levavam como escravos para suas lavouras.[44] Antônio Raposo Tavares foi um dos maiores chefes dessas expedições predatórias.[44] As aldeias foram arrasadas, seus habitantes mortos ou aprisionados, e os sobreviventes fugiram com os jesuítas, para o sul, onde se fixaram junto à margem direita do rio Uruguai.[42][43]
Ao levar a catequese, o aldeamento, as estâncias e os ervais a uma larga faixa do território, entre 1632 e 1634 os jesuítas estabeleceram reduções no alto Ibicuí (São Tomé, São Miguel, São José, São Cosme e São Damião). Ampliaram a área de penetração, alcançaram a bacia do Jacuí e fixaram outras reduções, inclusive para além da província do Tape (Santa Teresa, Santa Ana, São Joaquim, Natividade, Jesus Maria, São Cristóvão).[42][43]
A vitória alcançada contra os paulistas na batalha de Mbororé, em 1641, não foi suficiente para permitir a fixação das reduções.[45] O êxodo das populações indígenas—já iniciado depois do assalto da bandeira de Raposo Tavares, em 1637—se intensificou, com a transferência dos jesuítas e dos índios para a margem direita do rio Uruguai, na fértil mesopotâmia do Paraná.[42][43][46]
Concluiu-se, por força de tais acontecimentos, a primeira fase da civilização jesuítica no território do atual Rio Grande do Sul, com o abandono de terras abertas aos que primeiro chegassem para ocupá-las, aventureiros e colonizadores.[47] Somente depois de 1680, com a fundação da Colônia do Sacramento, na margem superior do rio da Prata, a região passou a ser objeto de disputa política por parte de portugueses e espanhóis.[42][48][49]

Os Sete Povos[editar | editar código-fonte]

As ruínas jesuítas de São Miguel das Missões, na Região das Missões, no estado do Rio Grande do Sul. São Patrimônio da Humanidade pela UNESCO desde 1983.
A pressão dos bandeirantes não pôs fim à presença dos jesuítas na margem oriental do rio Uruguai.[49] Retornaram os religiosos cinqüenta anos depois do êxodo, atraídos pelas disponibilidades econômicas da região, sobretudo pelo gado.[49] Inaugurou-se, na volta ao território perdido, a segunda fase da penetração jesuítica,[50] que na realidade só terminou com a fulminante ação militar de 1801—precedida de longas e indecisas ações diplomáticas --, a qual incorporou definitivamente a região ao Rio Grande do Sul.[42][49][51]
A segunda fase cifra-se na história dos Sete Povos das Missões, com o marco inicial de 1687 (São Francisco de BorjaSão NicolauSão Luiz GonzagaSão Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, Santo Ângelo Custódio).[50] O perigo dos paulistas não cessara, embora se tornasse menos ameaçador, concentrada a ação do poder dos portugueses na faixa litorânea, de que a Colônia do Sacramento seria o ponto extremo.[42][49]
Situados em terras de domínio nominal da Espanha, sob o comando de Buenos Aires, os Sete Povos abrangiam, as extremas dos grandes rebanhos de gado, que se concentravam nas vacarias—as Vacarias do Mar, que alcançavam o extremo sul do atual Rio Grande do Sul, penetrando em território uruguaio, e a Vacaria dos Pinhais, na região da hoje ainda chamada Vacaria, no nordeste do estado.[42][52][49]
Ao fato da coincidência geográfica do território, acentuado por alguns historiadores para vincular a história do Rio Grande do Sul às missões jesuíticas, agregam outros estudiosos o motivo econômico, sobretudo baseado na expansão do gado. As duas fases das Missões assinalam diferenças qualitativas. Na primeira predominou o zelo evangelizador, integratório dos indígenas na civilização espanhola; a segunda foi marcada pelo fundamento econômico da expansão, de índole utilitária e dominada por preocupações agora marcadamente políticas, de exclusivismo nacional, embora, em certo momento, arredia e até hostil à autoridade espanhola.[42][49]
Arte missioneira: Nossa Senhora da Conceição, acervo do Museu Júlio de Castilhos. Nota-se os traços indígenas na face e nos cabelos longos e lisos.
O gado, de início aclimatado na margem do rio Uruguai, é de origem paulista, introduzido em São Vicente, onde Martim Afonso estabelecera o principal curral. Invadindo o Paraguai, depois de proliferar, irradiou-se pelas pastagens vizinhas, com a distribuição, pelos jesuítas, de 99 cabeças para cada aldeamento, em 1634. A matança foi proibida nos primeiros anos. Provavelmente, esse núcleo original se havia ampliado com cabeças vindas do Peru, já a partir de 1569, acrescidas das manadas que se projetaram da atual província de Corrientes, na Argentina. A bagualada já campeava livremente nos pampas, trazida pela expedição de Pedro de Mendoza, que em 1535 desembarcou no Prata 72 cavalos e éguas.[42][49]
Os rebanhos, alimentados pelas pastagens naturais e protegidos pelos acidentes das florestas e rios (os rincões), proliferaram com abundância, espraiando-se nas Vacarias do Mar e prolongando-se na Vacaria dos Pinhais, onde se localizou extenso depósito de gado para o abastecimento das aldeias. Aos currais das aldeias somaram-se os das invernadas, os campos de cria, alimentados com rebanhos nascidos em regiões mais distantes. Ovelhas e cabras, de procedências várias, completavam o rico plantel das Missões, que só começou a ser saqueado por elementos estranhos, portugueses e espanhóis, depois da fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, e no segundo decênio do século XVIII, com a gente de São Paulo e Laguna, que o explorou para satisfazer às necessidades da população de Minas Gerais, durante o ciclo do ouro.[42][49]
civilização jesuítica, um caso de subcultura regional, mesmo na herança fluida e fantasmagórica que deixou ao império lusitano, ao ser incorporada definitivamente em 1801, foi apenas um corpo estranho, jamais absorvido no processo histórico português e brasileiro. Tenazmente combatido pelas armas e interiormente desintegrado, não deixou a permanente junção da continuidade histórica. A conquista do Rio Grande e seu povoamento, de caráter luso, legado ao império brasileiro, serão obra da gente portuguesapaulista e lagunista de diversas procedências, gente de toda a colônia. As Missões Orientais são um episódio malogrado da corrente que procurou o Atlântico, de Buenos Aires e, depois, do vice-reinado do Prata.[42][49]
Tal ponto de vista, acentuando essas razões e desfazendo equívocos, será confirmado em obra de 1945, de autoria de Serafim Leite, insuspeito de antipatia à causa jesuítica. Para esse historiador, as Missões jesuíticas do Rio Grande do Sul se incluem na história da Espanha e, por via desta, na do Paraguai. Seriam portanto desligadas da futura história do extremo-sul, diretamente vinculado ao processo civilizatório do Brasil. O resíduo espiritual das Missões tem significado irrelevante. Ao serem absorvidas pelo Brasil, já se haviam desintegrado; o próprio contingente de sua população praticamente nada representava: cerca de 14.000 pessoas numa área de 170.825km2, em 1801.[42][49]

A expansão[editar | editar código-fonte]

O litoral do atual território do Rio Grande do Sul só foi explorado pela expedição de Martim Afonso de Sousa, cabendo-lhe provavelmente a primazia na descoberta da barra do rio Grande ou rio de São Pedro. O mapa de Martim Viegas, de 1534, consigna o local e o nome, aludindo ao Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, em 1587, as relações comerciais entre os vicentinos e os indígenas do litoral sulino, referências confirmadas por documentos posteriores.[42][53]
O Tratado de Tordesilhas não impediu que a coroa portuguesa se atribuísse o território que hoje compreende o Rio Grande do Sul e a República Oriental do Uruguai. Era a Capitania d'El-Rei ou província d'El Rei e figura num mapa de 1562 com o nome "d'el Rei Nosso Senhor". Em 1676 o regente D. Pedro doou ao visconde de Asseca e a João Correia de Sá duas parcelas de terra, desde Laguna até a foz do rio da Prata. Ainda em 1676 o bispado do Rio de Janeiro se estendia até o rio da Prata, provavelmente em consonância com as reivindicações portuguesas. As capitanias, não exploradas, reverteram, em 1727, ao patrimônio real, negando-se D. João V a confirmá-las.[42][53]
A partir de meados do século XVII, sob o estímulo e o comando oficial, a expansão portuguesa para o sul tomou o rumo da costa atlântica ou junto à margem oceânica, sempre com apoio marítimo. Em 1647 fundou-se Paranaguá, com a fixação, sete anos depois, de Curitiba, em movimento que tornaria impossível, no futuro, um avanço capaz de separar São Paulo e o Rio de Janeiro do extremo-sul. Em 1658 já existia São Francisco, como ponto de apoio, plantado no território do atual estado de Santa Catarina.[42][53]
A metrópole deliberou expandir-se para o sul, tendo por ponto de apoio a ilha do Desterro, em Santa Catarina. Com uma pequena força, o governador do Rio de JaneiroManuel Lobo, construiu uma fortaleza, a Colônia do Sacramento, no estuário dos rios Paraná e Uruguai, em pleno rio da Prata, de onde se iniciaria o processo de consolidação da presença portuguesa na região. Com base no Tratado de Tordesilhas, o governador de Buenos AiresJosé de Garro, se opôs à ocupação e deu início a um conflito que só teria fim 150 anos depois, com a criação definitiva de um novo país soberano, a República Oriental do Uruguai.[42][53]
Entre o Rio de Janeiro e a Colônia do Sacramento, com os pontos intermediários de Paranaguá, São Francisco e a ilha do Desterro, a fundação de Laguna seria decisiva para fixar as comunicações e estreitar o espaço da ocupação do solo. Suas bases povoadas, com estrutura administrativa, seriam criadas em 1688, quando Domingos de Brito Peixoto, com seus dois filhos, aí estabeleceu casais, agregados e aderentes, fazendo plantações e promovendo o convívio com os índios. Laguna passou a vila em 1774, data em que, ainda por iniciativa oficial, se cogitou do caminho terrestre para o rio de São Pedro. O hiato de 150 léguas, bloqueado pela costa carente de acessos naturais, iria fechar-se no curso do século XVIII.[42][53]
O General João Borges Fortes, em sua obra "Rio Grande de São Pedro", observou que ao bandeirante Francisco de Brito Peixoto deve-se o pioneirismo na ocupação das terras que ficam entre Laguna e Colônia do Sacramento, dando início à presença luso-brasileira no Rio Grande do Sul.[54] A partir daí, colonos procedentes de Laguna dirigiram-se ao Rio Grande, ocupando as regiões do Viamão.[55] Em 1732, são concedidas as primeiras sesmarias.[55]
Não há dúvida de que antes da conquista e do povoamento, aventureiros de procedências várias viveram das Vacarias do Mar, explorando o comércio e o artesanato de couros, em precárias vias de trânsito, num roteiro conhecido desde 1703. Dentre esses aventureiros—guerreiros e empresários a sua custa—destacou-se Cristóvão Pereira, que se dedicou à extração, compra e exportação de couros da Colônia do Sacramento, penetrando as planuras e alcançando São Paulo por via terrestre.[42][53]
A partir dessas duas linhas de penetração (Colônia do Sacramento e Laguna), fechou-se progressivamente o intervalo territorial, praticamente terra de ninguém. As iniciativas pioneiras, ambas da primeira metade do século XVIII, tiveram índole diversa. De Laguna partiu para o sul, sob o fascínio de grandes rebanhos de gados e cavalos, a incursão povoadora de João de Magalhães, que em 1725 fixou invernadas até o rio Grande (rio Guaíba), com a distribuição, mais tarde, de sesmarias aos colonizadores. Em 1727 abriu-se o caminho chamado de estrada dos Conventos, de Araranguá a Lajes, daí alcançando os campos curitibanos até chegar a Sorocaba, o grande entreposto, ainda nesse século, dos rebanhos de gado vacumcavalar e muar. No seu contingente e nas suas inspirações, foi essa uma obra dos paulistas.[42][53]
Em seqüência ao impulso do norte, de povoamento e exploração do gado, que em breve se consolidaria nas estâncias de criação, a metrópole incumbiu o general Gomes Freire de Andrade, governador da capitania do Rio de Janeiro, de ocupar e fortificar o porto de Rio Grande. A chefia da empresa coube a seu substituto, brigadeiro José da Silva Pais, que, dentro de um plano que envolvia a defesa da Colônia do Sacramento e a tomada de Montevidéu, ocupou, em 19 de fevereiro de 1737, a barra do rio Grande.[42][53]
Desde alguns meses, aguardava-o em terra Cristóvão Pereira, com 160 homens. Construiu o forte Jesus-Maria-José, onde depois se localizaria a cidade do Rio Grande. O comandante cuidou de colonizar as redondezas, com casais trasmontanos e do Rio de Janeiro, fortificando-se com reforço de homens e munições.[53] As concessões de terras fixaram as populações no esboço da área urbana e nas regiões vizinhas, onde se iniciou o plantio, o recolhimento e a criação de gado.[56] Os dragões de Minas Gerais ali se estabeleceram, com regimento regular. Em 1743 chegou o primeiro visitador apostólico (representante do Papa), o padre Antônio Pestana Coimbra.[57] Em 1747 o aldeamento fortificado se constituiu em vila.[42][58]
Em 1750 o Tratado de Madri, entre Portugal e Espanha, pôs termo ao núcleo de expansão, cedendo a esta o estabelecimento às margens do rio da Prata, que ficou desimpedido das incursões e embaraços lusitanos. Ao domínio português passariam as Missões Orientais do Uruguai, que se trasladariam, com sua gente e bens, para a outra margem do rio, continuando a reforçar econômica e militarmente o território espanhol. Embora o tratado não respeitasse, quanto às Missões, o princípio do uti possidetis, depois consagrado como dogma nas disputas territoriais, o grande ministro de D. João V, Alexandre de Gusmão, artífice principal das negociações entre as duas coroas, estabeleceu uma variante: a fixação da fronteira tendo em vista os fatores naturais. O realismo prevaleceu contra o mito da linha do Prata, insustentável com os recursos bélicos e humanos então possíveis.[42][58]

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