Astrojildo Pereira Duarte Silva (Rio Bonito, 8 de novembro de 1890 — Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1965) foi um ex-anarquista[1] escritor, jornalista, crítico literário e político brasileiro, fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922.
Biografia[editar | editar código-fonte]
Aos 16 anos abandonou os estudos (no terceiro ano do o curso ginasial no Colégio Anchieta, de Nova Friburgo). Começou nesta época sua militância anarquista, em oposição à fé religiosa difundida pela Igreja e contra o militarismo, estimulado pelas greves operárias de 1906, Sob o impacto da o fracasso da Campanha Civilista de Rui Barbosa e repressão à Revolta da Chibata do marinheiro João Cândido no Rio de Janeiro e pela execução do pedagogo anarquista Francisco Ferrer, na Espanha, Astrojildo fez uma curta viagem a Europa, que serviu para amadurecer as suas convicções de antagonismo à ordem social [2].
Na juventude, como gráfico, fez parte de organizações operárias de orientação anarcossindicalistas, sendo um dos organizadores do segundo Congresso Operário Brasileiro[3], em 1913. Próximo aos principais líderes da Confederação Operária Brasileira, casou-se com a filha do anarquista Everardo Dias.
Iniciou na imprensa operária sua carreira de jornalista, atividade a que se dedicaria durante a maior parte de sua vida.
Em 1918, foi preso por participar da frustrada insurreição anarquista[4], sendo libertado em 1919.
De 1918 a 1921, o anarquismo viveu um período de crise interna. Astrojildo, inicialmente definia-se como “um intransigente libertário”. Ganhou um premio em dinheiro na loteria e fez uma doação de vários contos de réis para o jornal anarquista A Voz do Povo. Pouco a pouco, porém, o anarquista convicto passou a rever as teorias que serviam de base às suas convicções políticas e filosóficas. Sob o impacto mundial das conseqüências da Revolução Bolchevique , fascinado pelo que estava acontecendo no recém-fundado Estado Soviético, acabou aderindo ao socialismo científico.[5]
Funda em 1921 o Grupo Comunista do Rio de Janeiro. No ano seguinte, em março de 1922, reuniu os vários grupos bolchevistas regionais para criar o Partido Comunista do Brasil, em março de 1922, reconhecido dois anos depois como Seção brasileira da III Internacional.
Sua primeira viagem à União Soviética foi em 1924, na condição de secretário-geral do partido. No ano seguinte, junto com Otávio Brandão, iniciou a publicação do jornal A Classe Operária, órgão oficial do PCB. Em 1927, viajou à Bolívia para entrar em contato com o líder tenentista refugiado Luís Carlos Prestes, a fim de aproximá-lo do marxismo-leninismo. Em 1928, passou a ser um dos integrantes do Comitê Executivo da III Internacional.
Em torno de meados de 1929, com a colaboração de Octávio Brandão, Paulo de Lacerda e Cristiano Cordeiro, Astrojildo Pereira havia delineado um grupo dirigente do movimento operário, e iniciado a primeira tentativa de esboçar uma teoria da revolução brasileira que vislumbrava no latifúndio e no imperialismo os inimigos principais da classe operária, no campesinato e na pequena burguesia urbana (e seus intelectuais) os seus aliados. A questão agrária e a questão nacional seriam assim o fulcro da revolução democrática no Brasil. Como ficou bem demonstrado no texto Agrarismo e Industrialismo de Octávio Brandão que ele ajudou a escrever [6].
Após viver em Moscou entre fevereiro de 1929 e janeiro de 1930, voltou ao Brasil com a missão de impor a uma dúbia política de proletarização do partido, combatendo as influências anarquistas e substituindo intelectuais por operários. No entanto, essa política de "obreirização" [7] acabou atingindo ele próprio em novembro do mesmo ano, quando foi afastado da secretaria-geral do PCB. No ano seguinte, desligou-se do partido e e passou a colaborar no jornal carioca Diário de Notícias e na revista Diretrizes. Como crítico literário, especializou-se nas obras de Machado de Assis e Lima Barreto.
Quanto a esse tema, foi narrado por Lúcia Miguel-Pereira[8] que Astrojildo Pereira visitou o leito de morte de Machado de Assis.
Em 1945, retornou ao PCB, passando a colaborar com sua imprensa partidária. No entanto, após a cassação do partido, em 1947, a diretriz política sectária ordenada por Prestes até 1956, acabaram o afastando novamente do PCB.
Após a instauração do governo militar, em 1964, foi preso no mês de outubro, por três meses, já em estado de saúde precário. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1965.
Em 2 de agosto de 1982, intelectuais então vinculados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) fundaram o Instituto Astrojildo Pereira (IAP)[9], uma associação civil sem fins lucrativos, com sede em São Paulo e de abrangência nacional. Tendo como referencial a teoria social fundada por Karl Marx, o IAP pretende ser um espaço de convergência de esforços de diferentes setores do mundo intelectual e do espectro político para construção coletiva de referências teóricas e culturais que incidam sobre as lutas democráticas da sociedade brasileira na perspectiva socialista. Em 2000 o Partido Popular Socialista cria a FAP — Fundação Astrojildo Pereira[10], com o objetivo de preservar a memória do fundador do PCB e dos militantes comunistas brasileiros através de estudo e pesquisa.
Bibliografia[editar | editar código-fonte]
- FEIJÓ, Martin Cézar. Formação política de Astrojildo Pereira (1890–1920). São Paulo, Novos Rumos, 1985.
- FEIJÓ, Martin César. O revolucionário cordial: Astrojildo Pereira e as origens de uma política cultural. São Paulo, Boitempo Editorial, 2001.
- KONDER, Leandro. “Astrojildo Pereira: o homem, o militante, o crítico” In: Memória & História, no 1, Ciências Humanas, São Paulo, 1981.
- LENA JR., Hélio de. Astrojildo Pereira: um intransigente libertário (1917–1922). Vassouras, Universidade Severino Sombra, 1999. Dissertação de mestrado; orientador: Lincoln de Abreu Penna.
- OLIVEIRA, J. R. Guedes de Oliveira. Viva, Astrojildo Pereira! 4ª capa de Antonio Cândido. São Paulo, Fundação Astrojildo Pereira, 2005. 228 pp.
Referências
- ↑ Astrojildo Pereira, um camarada histórico, fundador do PCB
- ↑ segundo 'Marcos Del Roio, Prof. de Ciências Políticas, FFC-Unesp/Marília in Revista Espaço Acadêmico nº 41 de Março de 2004
- ↑ Aguena, Paulo. «O surgimento do movimento sindical no Brasil». Jornal OPINIÃO SOCIALISTA. 10/5/2006. Consultado em 12 de março de 2012
- ↑ Addor, Carlos Augusto. «Ilusões Revolucionárias». Revista de Historia. 17/9/2007. Consultado em 12 de março de 2012
- ↑ KONDER, Leandro. “Astrojildo Pereira: o homem, o militante, o crítico” In: Memória & História, no 1, Ciências Humanas, São Paulo, 1981
- ↑ Rodrigues, Alexandre M. E. (2006). «Octávio Brandão: Uma Leitura Marxista dos Dilemas da Modernização Brasileira» (PDF). Revista Intellectus / Ano 05 Vol. I -. 3 páginas. Consultado em 27 de fevereiro de 2012
- ↑ Martorano, Luciano Cavini. «Lênin e a Burocracia». Centro de Documentação e Memória. 01/02/1996. Consultado em 12 de março de 2012
- ↑ Euclides da Cunha (30 de setembro de 1908). «Euclides da Cunha sobre Machado de Assis» (PDF). Jornal do Commercio
- ↑ http://www.institutoastrojildopereira.org.br/
- ↑ http://www.fundacaoastrojildo.org.br/
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