O celibato (do latim cælibatus, estado daquele que não é casado ou que é célibe) é, na sua definição literal, o estado de uma pessoa que se mantém solteira1 , sem obrigação de manter a virgindade, podendo ter relações sexuais. No entanto, o termo é popularmente usado para descrever uma pessoa que escolhe abster-se de atividades sexuais.
Motivações[editar | editar código-fonte]
- do latim cælibatus "sem estar casado", em oposição a coniugalem, conjugal, com jugo, espécie de forca por baixo da qual desfilavam (perante os Romanos) os inimigos vencidos.
- Crenças religiosas - celibato clerical;
- Para concentrar-se em outras questões, como carreira profissional;
- Falta de apetite sexual
- Celibato involuntário - uma pessoa que devido à sua solidão e isolamento social mantenha involuntariamente um celibato, contra sua vontade;
- Como uma tentativa de obter um senso de identidade e independência dos outros;
- Por problemas de saúde - celibato médico;
- Evitar os riscos de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis;
- Evitar se decepcionar emocionalmente;
- Como um meio de controle de natalidade;
Cristianismo[editar | editar código-fonte]
O Celibato é visto de forma diferente por diferentes grupos cristãos. A Bíblia ensina que o celibato é um estado de honra. O apóstolo Paulo escreve em 1 Coríntios 7, "É bom para um homem não ter relações sexuais com uma mulher." Mas, devido à tentação de imoralidade sexual, cada homem deve ter a sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido." (versículos 1-2); "Eu desejo que todos sejam como eu sou. Mas cada um tem o seu próprio dom de Deus, um de uma espécie e uma de outro. Para os solteiros e as viúvas digo que é bom para eles permanecer como eu sou. Mas se eles não podem exercer auto-controle, devem casar. Por isso é melhor casar do que queimar com paixão." (versículos 7-9); "Quero que você seja livre de medos. Solteiro o homem está preocupado com as coisas do Senhor, a forma de agradar ao Senhor. Porém, o homem casado está preocupado com as coisas mundanas, como agradar à sua esposa, e seus interesses estão divididos. E a mulher solteira está preocupada com as coisas do Senhor, como ser santa no corpo e espírito. Mas a mulher casada está preocupada com as coisas mundanas, como para agradar o marido. Digo isto para seu próprio benefício, para não estabelecer qualquer restrição sobre você, mas para promover a boa ordem e para garantir o seu indiviso devoção ao Senhor." (versículos 32-35)2
Perspectiva católica[editar | editar código-fonte]
Para a Igreja Católica Apostólica Romana, a castidade antes do casamento é uma forma de conhecer o parceiro. A Igreja aceita que o desejo pelo prazer sexual faz parte da natureza humana, mas que a felicidade e o prazer não são sinônimos. O prazer poderia transformar o parceiro sexual em um meio, em um ato egoísta, enquanto o verdadeiro conhecimento do parceiro (amor) poderia estar sendo camuflado.
Embora no passado fosse aceite o matrimônio de padres ordenados (tendo incluso São Paulo recomendado a fidelidade matrimonial aos bispos 3 ), na atualidade, exceptuando em casos referentes aos diáconos e a padres ordenados pelas Igrejas orientais católicas e pelos ordinariatos pessoais para anglicanos, todo o clero católico latino é obrigado a observar e cumprir o celibato.4 5 6 Nas Igrejas orientais, o celibato é apenas obrigatório para os bispos, que são escolhidos entre os sacerdotes celibatários.7
O celibato acabou por se impôr no Ocidente: o Código de Direito Canónico impõe o celibato a todos os sacerdotes da Igreja Latina (em 1123). Porém, há várias exceções de sacerdotes casados na Igreja Latina, houve alguns papas casados (Adriano II, Honório IV), bispos casados (nas diocese da Islândia até à Reforma protestante; o bispo Salomão Barbosa Ferraz no Brasil) e vários padres casados ordenados nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido e Escandinávia, sob autorização especial.
A Igreja Católica de rito latino, sinteticamente, dá as seguintes principais razões de ordem teológica para o celibato dos sacerdotes e religiosos de vida consagrada:8
- com o celibato os sacerdotes entregariam-se de modo mais excelente a Cristo, unindo-se a Ele com o coração indiviso;
- o celibato facilita ao sacerdote a participação no amor de Cristo pela humanidade uma que vez que Ele não teve outro vínculo nupcial a não ser o que contraiu com a sua Igreja;
- com o celibato os clérigos dedicariam-se com maior disponibilidade ao serviço dos outros homens;
- a pessoa e a vida do sacerdote são possessão da Igreja, que faz as vezes de Cristo, seu esposo;
- o celibato dispõe o sacerdote pare receber e exercer com generosidade a paternidade que pertence a Cristo.
História[editar | editar código-fonte]
A recomendação de celibato clerical na igreja latina possui sua primeira menção pelo Concílio de Elvira (295-302), mas, como este concílio era apenas um concílio provincial espanhol (Elvira era uma cidade romana, junto a Granada), as suas decisões não foram cumpridas por toda a Igreja cristã 9 10 . O Concílio de Elvira assim legislou: "Bispos, presbíteros, diáconos e outros que ocupem uma posição no ministério devem abster-se totalmente de relações sexuais com suas esposas e da procriação de filhos. Se alguém desobedecer, seja ele privado do estado clerical" (XXXIII cânon). O Primeiro Concílio de Niceia (323) decretou apenas que "todos os membros do clero estão proibidos de morar com qualquer mulher, com excepção da mãe, irmã ou tia" (III cânon) 9 . Apesar disso, no final do século IV, a Igreja Latina promulgou várias leis a favor do celibato, que foram geralmente bem aceites no Ocidente no pontificado de São Leão Magno (440-461) 10 . Aliás, o Concílio de Calcedónia (451) proibiu o casamento de monges e virgens consagradas (XVI cânon), impondo por isso o celibato ao clero regular.11
Porém, apesar disso, houve vários avanços e recuos na aplicação desta prática eclesiástica, nomeadamente entre o clero secular, chegando até mesmo a haver alguns Papas casados, como por exemplo o Papa Adriano II (867-872).12 No século XI, vários Papas, especialmente Leão IX (1049-1054) e Gregório VII (1073-1085), esforçaram-se novamente por aplicar com maior rigor as leis do celibato, devido à crescente degradação moral do clero, causada em parte pela confusão instaurada pelo desmembramento do Império Carolíngio. Naquele período, houve padres e bispos que chegaram a mostrar publicamente que tinham esposas ou concubinas.10 Segundo fontes históricas, durante o Concílio de Constança (1414-1418), 700 prostitutas atenderam sexualmente os participantes.13 14 15 .
Por fim, o Primeiro Concílio de Latrão (1123) e o Segundo Concílio de Latrão (1139) condenaram e invalidaram o concubinato e os casamentos de clérigos, reforçando assim o celibato clerical, que já era na altura uma prática frequente e aceite pela maioria como necessária.16 17 O celibato é defendido porque os celibatários eram mais livres e disponíveis, daí que, com o tempo, o clero regular se foi destacando em relação ao clero secular.
O celibato clerical voltou ainda a ser defendido em força pelo Quarto Concílio de Latrão (1215) e pelo Concílio de Trento (1545-1563), que impôs definitivamente o celibato obrigatório a todo o clero da Igreja Latina, incluindo o clero secular.10
Magistério da Igreja Católica[editar | editar código-fonte]
Verifica-se pelos documentos da Igreja que há de sua parte uma vontade decidida de manter esta praxis antiqüíssima: Pio XII abordou o tema na encíclica Sacra virginitas. Em 1965 dois documentos do Concílio Vaticano II trataram do tema do celibato sacerdotal: Presbyterorum ordinis, n. 16 e Optatam totius, n. 10.
Sobre este tema o Papa Paulo VI, em 24 de junho de 1967, editou uma encíclica denominada Sacerdotalis Caelibatus, sobre o celibato sacerdotal, neste documento lembra a apologia que os Padres Orientaisfizeram da virgindade: Ainda hoje faz eco no nosso coração, por exemplo, a voz de São Gregório Nisseno, quando nos recorda que "a vida virginal é a imagem da felicidade que nos espera no mundo que virá".
Em 1971, o II Sínodo dos Bispos preparou um novo documento no mesmo sentido, depois aprovado pelo Papa Paulo VI, denominado De sacerdotio ministeriali, de 30 de novembro.
Também João Paulo II afirma: Fruto de equívoco — se não mesmo de má fé — é a opinião, com frequência difundida, de que o celibato sacerdotal na Igreja Católica é apenas uma instituição imposta por lei àqueles que recebem o sacramento da Ordem. Ora todos sabemos que não é assim. Todo o cristão que recebe o sacramento da Ordem compromete-se ao celibato com plena consciência e liberdade, depois de preparação de vários anos, profunda reflexão e assídua oração. Toma essa decisão de vida em celibato, só depois de ter chegado à firme convicção de que Cristo lhe concede esse «dom», para bem da Igreja e para serviço dos outros. Só então se compromete a observá-lo por toda a vida. (Carta Novo incipiente a todos os sacerdotes da Igreja na Quinta-feira Santa -8 de abril de 1979).
Bento XVI, recentemente, em Mariazell, disse: Para comprender bem o que significa a castidade devemos partir do seu conteúdo positivo, explicando que a missão de Cristo o levava a um dedicação pura e total para com os seres humanos. Nas Sagradas Escrituras não há nenhum momento de sua existência donde em seu comportamento com as pessoas se vislumbre pegadas de interesse pessoal. (…) Os sacerdotes, religiosos e religiosas, (…) com o voto de castidade no celibato, não se consagram ao individualismo ou a uma vida isolada, mas sim prometem solemente por totalmente e sem reservas ao serviço do Reino de Deus as relações intensas das quais são capazes. (Da homilia na Basílica de Mariazell, Áustria, 8 de setembro de 2007).
Segundo a revista La Civiltà Cattolica, desde o Concílio Vaticano II (1962-65) perto de 60 mil padres deixaram a Igreja.18 .
Perspectiva islâmica[editar | editar código-fonte]
O Islão não promove o celibato, pelo contrário, promove o casamento. De fato, de acordo com o Islão o casamento é um forma que permite à pessoa chegar ao mais elevado nível de justiça espiritual e sagrado.
Houve incidentes em que pessoas indagaram ao Profeta Maomé que eles preferiam viver em oração, celibato e jejum para alcançar o amor de Deus. No entanto, Maomé disse-lhes que, apesar desta escolha ser boa, é também uma bênção levantar uma família. Porém o Islão respeita aqueles que escolhem conduzir a sua vida dessa maneira.
Referências
- ↑ Minidicionário Ruth Rocha. Editora Scipione. 2001. ISBN 85-262-2768-8
- ↑ [1]
- ↑ Primeira Carta a Timoteu:

Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, ...; 
- ↑ IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica (em português). Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000. N. 1579 e 1580 p. ISBN 972-603-208-3
- ↑ PAPA BENTO XVI (2009). Anglicanorum Coetibus (em português) Santa Sé. Visitado em 4 de Outubro de 2010.
- ↑ Normas Complementares à Constituição Apostólica Anglicanorum coetibus (em português) Santa Sé (2009). Visitado em 4 de Outubro de 2010.
- ↑ Celibato (em português) Enciclopédia Católica Popular. Visitado em 4 de Outubro de 2010.
- ↑ SADA, Ricardo e MONROY, Alfonso. Curso de Teologia dos Sacramentos. Lisboa: Rei dos Livros, 1991, pgs. 160-161.
- ↑ a b CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). The First Council of Nicaea (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 26 de Setembro de 2010.
- ↑ a b c d CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). Celibacy of the Clergy (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 26 de Setembro de 2010.
- ↑ CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). Council of Chalcedon (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 26 de Setembro de 2010.
- ↑ CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). Pope Adrian II (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 3 de Outubro de 2010.
- ↑ Cfr. pág 98 de Jerry Brotton. El bazar del Renacimiento: sobre la influencia de Oriente en la cultura occidental
- ↑ E. Miret Magdalena: «La azarosa historia del celibato clerical», jornal El País, 26 de março de 2002.
- ↑ Daniel-Rops (Henri Petiot), Histoire de l'Eglise du Christ (Historia de la Iglesia de Cristo) (1948-1963)
- ↑ CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). First Lateran Council (1123) (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 26 de Setembro de 2010.
- ↑ CATHOLIC ENCYCLOPEDIA (1913). Second Lateran Council (1139) (em inglês) Newadvent.org. Visitado em 26 de Setembro de 2010.
- ↑ Amantes de padres escrevem ao Papa para pedir fim do celibato.
Bibliografia[editar | editar código-fonte]
- PORTILLO, Álvaro del. O sacerdote no Vaticano II. Lisboa: Ed. Aster, 1972.
- TANQUEREY, Adolphe. Compendio de Teología Ascética y Mística. Madrid: Ed. Palabra, 1996.
Ver também[editar | editar código-fonte]
- Castidade
- Assexualidade
- Celibato involuntário
- Virgindade
- Virgindade religiosa
- Sacra virginitas, encíclica de Pio XII, sobre a sagrada virgindade.
- Sacerdotalis caelibatus, encíclica de Paulo VI, sobre o celibato sacerdotal.
O celibato sacerdotal é uma disciplina que a Igreja segue desde a sua origem, ou seja, desde a época apostólica. Portanto, não é verdade que tenha se iniciado com o Concílio de Trento ou que seja uma invenção medieval do Concílio de Latrão.
A obra mais indicada para o estudo dessa disciplina da Igreja é o livro "Les origines apostoliques du célibat sacerdotal", do Padre Chistian Cochini, jesuíta francês que estudou profundamente o tema. O grande teólogo e Cardeal Henri de Lubac, renomado estudioso da patrologia afirmou sobre a obra de Cochini que ela é de importância fundamental por ter sido baseada em pesquisas notáveis, longas e metódicas e que na literatura atual sobre o tema nada se pode comparar a ela, nem mesmo de longe. Trata-se de uma obra revolucionária, profunda e inigualável que dificilmente será superada.
Para o Pe. Cochini existe uma diferença entre o celibato sacerdotal e a ordenação de homens solteiros. A Igreja sempre exigiu o celibato de seus clérigos, mas também sempre ordenou homens casados. Isso parece ser uma contradição, mas não é. A partir da ordenação sacerdotal, os homens casados e escolhidos pela Igreja para serem sacerdotes deixavam o uso do matrimônio e passavam a viver em continência. Esta prática foi fartamente confirmada pela documentação reunida pelo Padre Cochini. Apenas como exemplo, pode ser citado o decreto publicado no Sínodo de Elvira, em 25 de outubro de 304:
"Cânon 33: Ficou plenamente decidido impor aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, como a todos os clérigos no exercício do ministério, a seguinte proibição: que se abstenham das suas esposas e não gerem filhos; quem, porém, o fizer deve ser afastado do estado clerical." (DH 117) Interessante também é a Carta "Directa ad decessorem", de Sirício ao bispo Himério de Tarragona, em 10 de fevereiro de 385:"...Chegou ao nosso conhecimento que muitos sacerdotes de Cristo e levitas, onho tempo depois de sua consagração, geraram prole, quer do próprio matrimônio como também do coito torpe, e se defendem das incriminações com a desculpa de que no Antigo Testamento se lê que aos sacerdotes e aos ministros é concedida a faculdade de gerar.A essa argumentação o Papa opõe: Por qual motivo se mandava aos sacerdotes no ano do seu ministério que habitassem no templo, longe até de casa? Sem dúvida para que não pudessem ter encontros carnais nem mesmo com as esposas, para oferecer a Deus um dom agradável no esplendor da integridade da consciência.Por isso também o Senhor Jesus, tendo-nos iluminado com a sua vinda, afirma, no Evangelho, ter vindo para completar a Lei e não para a abolir. Por isso quis que a figura da Igreja, da qual é o Esposo, emane o esplendor da castidade, para que no dia do juízo, quando virá de novo, a pessoa encontrar ‘sem mancha nem ruga’... Todos, os sacerdotes e levitas, estamos ligados pela lei indissolúvel destas disposições, para que, desde dia de nossa ordenação, entreguemos tantos nossos corações como nossos corpos à sobriedade e à pureza, para agradar ao Senhor nosso Deus nos sacrifícios que diariamente oferecemos." (DH 185)
Assim, o que se vê é que a Igreja, desde os seus primórdios, adotou o celibato para os seus sacerdotes. O Catecismo da Igreja Católica explica que: "Todos os ministros ordenados da Igreja latina, com exceção dos diáconos permanentes, normalmente são escolhidos entre os homens fiéis que vivem como celibatários e querem guardar o celibato ‘por causa do Reino dos Céus’. Chamados a consagrar-se com indiviso coração ao Senhor a ‘cuidar das coisas do Senhor’, entregam-se inteiramente a Deus e aos homens. O celibato é um sinal da nova vida da qual o ministro da Igreja é consagrado; aceito com coração alegre, ele anuncia de modo radiante o Reino de Deus. (...) No Oriente como no Ocidente, aquele que recebeu o sacramento da Ordem não pode mais casar-se." (1579-1580)
O livro "Celibato Eclesiástico: História e Fundamentos Teológicos", escrito pelo Cardeal Alfons M. Stickler é uma excelente obra sobre o tema, na qual o seu autor apresenta a fundamentação do celibato sacerdotal com sua origem apostólica sob os pontos de vista canonístico e teológico. De forma clara, ele fundamenta a realidade teológica da disciplina do celibato como algo que está vinculado à própria identidade do sacerdote.
Para ele, é a atual crise de identidade sacerdotal que tem como consequência a crise no celibato e não o contrário. Infelizmente, os detratores do celibato creem que a crise sacerdotal se resolverá com a liberação da disciplina do celibato, mas isto não é verdade.
O Padre Thomas Mcgovern, em seu estudo "Priestly Celibacy Today", afirma que no período de 1964 até 1992, deixaram o ministério sacerdotal 54.432 padres, o que corresponde a duas vezes e meia o número de sacerdotes do Brasil hoje ou 13% dos padres do mundo. Para ele, esse número se explica pela crise de identidade sacerdotal pois, antes, o sacerdote era compreendido como um homem que oferecia o sacrifício oferecendo-se também em sacrifício. Porém, quando passou a ser visto como um funcionário da Igreja, uma espécie de professor, de assessor, de facilitador, um sujeito que ensina o caminho para uma engenharia social e a transformação da realidade, o celibato perdeu o sentido, pois não exige o sacrifício. É isto que o sacerdote representa na visão dos teólogos modernos.
O celibato sacerdotal não é exigido pela natureza do sacerdócio, ou seja, a pessoa pode ser sacerdote e não ser celibatário, no entanto, duas realidades devem ser levadas em conta:
1) historicamente, sacerdócio e celibato sempre andaram juntos, desde o tempo dos apóstolos;
2) teologicamente, a concepção de padre enquanto homem do sagrado que se oferece e sacrifício e celibato, complementam-se. E é a consciência da Igreja desde sempre.
Os teólogos liberais trabalham para dissociar o sacerdócio católico do celibato dizendo que o sacerdócio católico é diferente no Novo Testamento e que ele nada tem a ver com o do Antigo Testamento, pois agora o padre é apenas um ministro da palavra. Essa é uma visão protestante e herética (marcionita, pois quer evitar qualquer ligação com o AT). No entanto, o Antigo Testamento sempre iluminou a realidade do sacerdote católico. Na carta aos Hebreus, Jesus é apresentado como o Sumo e Eterno Sacerdote, que realizou as profecias contidas e todas as prescrições sacerdotais do Antigo Testamento e as realizou até a plenitude, oferecendo-se a si mesmo em sacrifício.
Quando Jesus escolhe os seus apóstolos e pede que deixem casa, campo, pai, mãe, mulher e filhos por amor ao Reino dos Céus, Ele está imprimindo no coração, na identidade do ministro da Igreja não somente a missão de pregar a palavra, mas um estilo de vida. Ainda hoje a Igreja pede que os seus sacerdotes deixem tudo porque, ao fazê-lo, estarão se sacrificando e o sacrifício é a primeira pregação que o sacerdote - Homem da Palavra - deve realizar.Será que existe um estado de vida no cristianismo que poderíamos chamar propriamente de “solteirice”? Ao ler a Sagrada Escritura, descobrimos que não. A Palavra de Deus nos apresenta somente dois estados possíveis: matrimônio e celibato. Este último, para alguns, equivaleria a ser solteiro, mas celibato e solteirice não são a mesma coisa.
Observemos: no Evangelho de Mateus 19, 12, Jesus nos diz: “Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda”.
A palavra “eunuco” equivale a “celibatário”; então, podemos entender três possibilidades de celibato:
1. Que a natureza os faça, ou seja, que alguma circunstância fisiológica ou psíquica os impeça de contrair matrimônio.
2. Que sejam feitos pelos homens: que alguma circunstância legal regulamentada pelo Estado ou pela Igreja os impeça de contrair matrimônio por não cumprirem os requisitos mínimos para isso, ou seja, não basta querer casar-se, é preciso poder fazê-lo sem, com isso, violar uma lei estabelecida que regulamente a união.
3. Que façam a si mesmos pelo Reino dos céus. Neste último caso, Jesus se refere àqueles que, tendo encontrado no Reino dos céus um tesouro que vale mais que todos os reinos deste mundo, entregam-se à sua consecução e construção.
Pois bem, que a natureza os faça, que os homens os façam ou que eles mesmos se façam celibatários não significa que tal estado deva ser visto no mesmo sentido que a solteirice. De fato, tanto o matrimônio como o celibato são estados de “esponsalidade”, pois ambos buscam a fecundidade humana para a construção do Reino de Deus, cada um a partir da sua própria maneira de ser “esposo”.
O estado de solteirice, por chamá-lo de alguma maneira, é um estado de solidão; muitas vezes mal assumido, pode se tornar um estado de amargura, frustração e sem sentido; o celibato, por sua vez, é um estado de permanente companhia do Senhor, de alegria e plenitude da existência.
Ambos, tanto o matrimônio quanto o celibato, são um chamado do Senhor, uma vocação, pois é dessa maneira que se consegue empregar todas as forças para trabalhar por uma causa que nos supera e que é maior que a própria existência.
Os celibatários foram chamados pelo Senhor Jesus a dar ao mundo uma visão que ultrapassa o puramente fisiológico, ajudando a re-compreender aquela opção que nos apresentam os que vivem na carne e venderam a ideia de que não é possível viver sem um parceiro ou que todos, absolutamente todos os seres humanos, estão chamados a procriar e gerar, dando cumprimento ao mandato do Senhor “Crescei e multiplicai-vos”, que aparece no Gênesis.
O celibato é uma nova forma de fecundidade, e a prova mais tangível disso é o próprio Jesus, que “gerou” um novo povo com toda a sua vida dedicada ao Pai Deus.
Mas, para que tudo isso adquira seu verdadeiro sentido e plenitude, é importante a experiência de Jesus no coração, pois só nele se entende este estado de vida; só nele deixamos de ser presas volúveis das paixões desordenadas, da angústia da solidão, pois um verdadeiro celibatárionunca é uma pessoa em solidão, já que conhece perfeitamente quem é o seu Senhor, sua companhia, Aquele a quem entregou sua vida e com quem semeia uma nova semente para fazer o Reino dos céus crescer entre os homens.
O celibato nunca é um estado de abandono, de falta de oportunidade, de assexualidade, de indiferença diante do outro, de falta de compromisso com as pessoas, de incapacidade de entrega; muito pelo contrário: nele, nós nos fazemos “tudo com todos para ganhar todos”, vivendo a condição de esposo em Cristo.
O celibato de Jesus, seu estado de vida, sua opção fundamental pelo Reino dos céus é nossa referência, à qual deve apontar nossa visão, para nunca perder de vista quem é Aquele que nos conquistou e seduziu nosso coração.
Será que existe um estado de vida no cristianismo que poderíamos chamar propriamente de “solteirice”? Ao ler a Sagrada Escritura, descobrimos que não. A Palavra de Deus nos apresenta somente dois estados possíveis: matrimônio e celibato. Este último, para alguns, equivaleria a ser solteiro, mas celibato e solteirice não são a mesma coisa.
Observemos: no Evangelho de Mateus 19, 12, Jesus nos diz: “Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda”.
A palavra “eunuco” equivale a “celibatário”; então, podemos entender três possibilidades de celibato:
1. Que a natureza os faça, ou seja, que alguma circunstância fisiológica ou psíquica os impeça de contrair matrimônio.
2. Que sejam feitos pelos homens: que alguma circunstância legal regulamentada pelo Estado ou pela Igreja os impeça de contrair matrimônio por não cumprirem os requisitos mínimos para isso, ou seja, não basta querer casar-se, é preciso poder fazê-lo sem, com isso, violar uma lei estabelecida que regulamente a união.
3. Que façam a si mesmos pelo Reino dos céus. Neste último caso, Jesus se refere àqueles que, tendo encontrado no Reino dos céus um tesouro que vale mais que todos os reinos deste mundo, entregam-se à sua consecução e construção.
Pois bem, que a natureza os faça, que os homens os façam ou que eles mesmos se façam celibatários não significa que tal estado deva ser visto no mesmo sentido que a solteirice. De fato, tanto o matrimônio como o celibato são estados de “esponsalidade”, pois ambos buscam a fecundidade humana para a construção do Reino de Deus, cada um a partir da sua própria maneira de ser “esposo”.
O estado de solteirice, por chamá-lo de alguma maneira, é um estado de solidão; muitas vezes mal assumido, pode se tornar um estado de amargura, frustração e sem sentido; o celibato, por sua vez, é um estado de permanente companhia do Senhor, de alegria e plenitude da existência.
Ambos, tanto o matrimônio quanto o celibato, são um chamado do Senhor, uma vocação, pois é dessa maneira que se consegue empregar todas as forças para trabalhar por uma causa que nos supera e que é maior que a própria existência.
Os celibatários foram chamados pelo Senhor Jesus a dar ao mundo uma visão que ultrapassa o puramente fisiológico, ajudando a re-compreender aquela opção que nos apresentam os que vivem na carne e venderam a ideia de que não é possível viver sem um parceiro ou que todos, absolutamente todos os seres humanos, estão chamados a procriar e gerar, dando cumprimento ao mandato do Senhor “Crescei e multiplicai-vos”, que aparece no Gênesis.
O celibato é uma nova forma de fecundidade, e a prova mais tangível disso é o próprio Jesus, que “gerou” um novo povo com toda a sua vida dedicada ao Pai Deus.
Mas, para que tudo isso adquira seu verdadeiro sentido e plenitude, é importante a experiência de Jesus no coração, pois só nele se entende este estado de vida; só nele deixamos de ser presas volúveis das paixões desordenadas, da angústia da solidão, pois um verdadeiro celibatárionunca é uma pessoa em solidão, já que conhece perfeitamente quem é o seu Senhor, sua companhia, Aquele a quem entregou sua vida e com quem semeia uma nova semente para fazer o Reino dos céus crescer entre os homens.
O celibato nunca é um estado de abandono, de falta de oportunidade, de assexualidade, de indiferença diante do outro, de falta de compromisso com as pessoas, de incapacidade de entrega; muito pelo contrário: nele, nós nos fazemos “tudo com todos para ganhar todos”, vivendo a condição de esposo em Cristo.
O celibato de Jesus, seu estado de vida, sua opção fundamental pelo Reino dos céus é nossa referência, à qual deve apontar nossa visão, para nunca perder de vista quem é Aquele que nos conquistou e seduziu nosso coração.
“Esposos celibatários”: esta seria nossa figura, nossa vocação.
“Esposos celibatários”: esta seria nossa figura, nossa vocação.O sexto mandamento da Lei de Deus determina guardar castidade nas palavras e nas obras. O seu âmbito inclui também a descoberta do significado e do valor do celibato consagrado e implica a sua vivência por aqueles que receberam um tal dom divino. Muita gente, hoje, não entende o celibato dos sacerdotes e não acredita que eles o vivam fielmente. Isto acontece, certamente, por alguns o quebrarem ou o porem em dúvida, e os outros nem sempre o saberem testemunhar com a sua vida feliz. Ao mesmo tempo, parece não ser contestada a virgindade das religiosas e de outras mulheres consagradas a Deus. Não sei se este estado de vida é realmente admirado por uma fatia significativa da sociedade. Pode acontecer que o grande valor destas opções de vida não esteja a passar para as pessoas nem as interpelem.
Há, entretanto, um outro fenômeno, na nossa sociedade, que contribui para dificultar o reconhecimento do valor do celibato consagrado: o alastrar do número de pessoas, homens e mulheres, que vivem solteiras, por motivos de independência pessoal ou de dedicação a uma causa que apaixona e absorve. O desinteresse pelo casamento pode também ser motivado pela falta de atração pelo outro sexo, por não se acreditar no casamento, por alguma imaturidade ou pelo medo de assumir compromissos definitivos. Nestas motivações, vem ao de cima a dificuldade crescente de estabelecer relações afetivas maduras e estáveis, por parte de muitas pessoas.
Que diferença há entre a vida cristã no celibato e estas situações humanas, escolhidas ou involuntárias? A forma exterior de vida pode ser semelhante, mas são bem diferentes a motivação, o espírito e a finalidade.
Podemos distinguir três formas de viver o celibato por parte dos fiéis cristãos:
Alguns homens e mulheres estão celibatários porque ainda não descobriram a pessoa certa com quem se casar. Quando o fiel cristão descobre na sua situação de solteiro um apelo de Deus e o aceita de livre vontade, a sua vida celibatária pode tornar-se vocação assumida e valorizada. A pessoa pode, então, como diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC), passar a viver a sua situação no espírito das bem-aventuranças, servindo a Deus e ao próximo de modo exemplar (nº 1658). Esta forma de vida pode não ser definitiva e a pessoa ser chamada ao matrimônio em qualquer idade.
Assumem de forma definitiva o celibato pelo reino dos Céus os que consagram totalmente a sua vida a Deus e, por isso, renunciam ao casamento. A sua opção resulta da percepção do amor de Cristo e do seu chamamento, correspondidos positivamente numa relação crescente de amor para com ele. Neste caso, a motivação para o celibato é teológica e carismática, é uma graça divina, que a pessoa acolheu e à qual correspondeu livremente com a entrega total de si mesma a Deus.
Outra forma é o celibato sacerdotal. Este, em certo sentido, une as duas formas anteriores: por um lado, resulta da circunstância de a pessoa sentir a vocação para o ministério sagrado; por outro, corresponde a uma entrega de si mesma para o serviço do Reino de Deus. A motivação é acentuadamente apostólica, mas fundamentada em razões teológicas e carismáticas. Diz o Catecismo: os ministros sagrados chamados a consagrarem-se totalmente ao Senhor e às suas coisas, dão-se por inteiro a Deus e aos homens. O celibato é um sinal desta vida nova, para cujo serviço o ministro da Igreja é consagrado; aceito de coração alegre, anuncia de modo radioso o Reino de Deus (nº. 1579; cf. 1599).
Como o matrimônio, também a vida celibatária é a concretização da vocação ao amor e à comunhão, a que todos são chamados. Respondendo a tal vocação inscrita no seu próprio ser, a pessoa humana realiza a sua condição e dignidade de imagem e semelhança de Deus, que é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor (CIC, 2331). Não pode haver opção celibatária que não seja motivada pelo amor a Deus e ao próximo. Mesmo na primeira forma acima apontada, se a pessoa assume a sua condição como vontade de Deus, não pode deixar de orientar a sua vida pelo amor, abrindo-se a uma relação sempre mais profunda de comunhão e de serviço.
Sendo resposta à vocação ao amor, a vida celibatária não significa menosprezo ou visão negativa da sexualidade. Esta, como afirma o Catecismo, afeta todos os aspectos da pessoa humana, na unidade do seu corpo e da sua alma. Diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar, e, de um modo mais geral, à aptidão para criar laços de comunhão com outrem (CIC, 2332). Escolhendo o celibato, a pessoa renuncia a uma forma de viver a sexualidade, para se entregar a Deus com um coração indiviso (CIC, 2349). Sublima o impulso e a energia sexual, dando-lhe outro significado e finalidade, para uma fecundidade espiritual. Como Cristo, também o Celibatário entrega o seu corpo, e todo o seu ser, por amor a Deus e em favor dos homens. Nesta doação total, por um amor oblativo, vive a castidade própria da sua condição.
O celibato, como o matrimônio, implica uma vida de relação com os outros e não de solidão, é caminho para a maturidade e não privação. É expressão de uma doação de si mesmo livremente decidida e não resultado de qualquer frustração ou desengano na relação afetiva. Também implica uma certa vivência da sexualidade: não na união física nem na auto-satisfação narcisista ou na procura do prazer recíproco e na expressão de afeto mútuo, mas na sua sublimação espiritual mediante o domínio de si mesmo. Esta liberdade pessoal é condição para fazer de si uma doação total e definitiva a Deus suscitada pela graça que dEle recebeu. O celibatário renuncia: à intimidade física em ordem a uma mais perfeita disponibilidade; ao calor humano de uma família, para se tornar pai ou mãe da humanidade; à continuação da vida nos próprios filhos para uma vida que não tem fim, a vida de Deus nas pessoas (E. Pepe).
O vida no celibato é, portanto, também uma opção de amor, mas orientada para Cristo. A pessoa doa-se a si mesma, não a uma pessoa de outro sexo com a qual estabeleceu vínculos de afeto, mas a Cristo no qual crê e pelo qual acredita ser amado. A sua entrega significa o assumir de uma vida que é renovada por Cristo e penetrada pela força do Espírito. A pessoa doa-se em todo o seu ser, também na dimensão física, mas o faz de forma diferente da que é vivida no matrimônio.
Há um texto muito sugestivo de Chiara Lubich que fala da castidade como o dilatar o coração segundo a medida do coração de Jesus. Fazendo assim, a pessoa empenha-se em amar cada irmão como Jesus o ama. A isso a autora chama a castidade de Deus. Escolhendo o celibato por ter sentido o grande amor de Cristo por ele, o fiel cristão esforça-se por viver o amor à maneira e segundo a medida de Cristo. Para ele, o amor a Cristo e aos irmãos constituem um mesmo e único amor. E trata-se sempre de amar por Jesus, por uma graça que vem dEle. É um amor a todos, universal, mas vivido na doação um a um, isto é, àquele que encontro, que passa pela minha vida. Está aqui a originalidade do amor na pessoa celibatária, que é diferente, portanto, do amor conjugal. Este passa sempre pelas expressões humanas da sexualidade e da ternura.
A doação livre de si mesma ao outro, fielmente, como Jesus ama, é que torna o amor puro e casto, tanto na pessoa casada como na celibatária. Na primeira, as expressões físicas do amor não o degradam; na segunda, não precisa tolher o coração nem reprimir o amor, pois encontrará sempre expressões belas para amar o seu próximo, de forma concreta e sensível. No primeiro caso, o amor une sempre mais quem o vive e estreita os vínculos entre as pessoas. É vivido na doação e acolhimento mútuos. No celibatário, o amor não prende, mas liberta, é vivido na generosidade e no desapego, torna a pessoa dom para os outros sem esperar a compensação.
O amor do celibatário há de ser também fecundo, gerar vida, não no sentido físico, mas na dimensão espiritual. Mediante o amor, o celibato gera a vida de Jesus nas almas que encontra, cria vínculos espirituais com as pessoas e pode mesmo exercer uma paternidade espiritual, fazendo com que tais pessoas se sintam regeneradas, recebendo uma nova vida: a de Deus. Deste modo, enriquece também a humanidade, contribui para o seu crescimento qualitativo e espiritual.
Quem é chamado ao celibato, consagrando a sua vida a Deus, faz a renúncia à vida de casado. Cumpre, quase à letra, a palavra de Jesus: Qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo (Lc 14,33). Renuncia à sexualidade genital, à relação de afeto com outra pessoa, à paternidade ou maternidade biológica, a constituir a sua família, desapega-se de tudo e de qualquer pessoa, para seguir Cristo mais de perto e viver uma comunhão especial com Ele. Mas desta relação, no Espírito Santo, pelo amor, há de surgir uma nova família, a fraternidade cristã, que pode adquirir múltiplas formas e que se traduz na vida da comunidade cristã, na sua variedade. Se não gerar a comunidade dos filhos e filhas de Deus, o celibato fica infecundo. Sem a paternidade ou maternidade espiritual, o celibatário corre o risco de ficar estéril e de viver a sensação de perda, de frustração, de estar incompleto, de não atingir a plenitude.
Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus (Mt 5,8). O celibatário, que assume a sua vocação livremente e a vive fielmente numa doação incondicional a Deus, no amor, e no serviço generoso aos irmãos, experimenta realmente a felicidade e vê verdadeiramente Deus na sua vida. Deixou tudo pelo Senhor, e nada lhe falta. Renunciou a constituir uma família, e vive rodeado de irmãos e irmãos, de filhos e filhas, numa grande família espiritual reunida no amor de Cristo.
A sua vida é muito diferente da de muitos solteiros de moda, centrados em si mesmos e nos seus prazeres, gerando e gerindo a solidão, que produz um vazio de alma e tédio. Viver em celibato, conservando a castidade do coração, exige esforço para corresponder à graça da própria vocação. É preciso, antes de mais, cuidado em manter e consolidar a liberdade pessoal, para amar sempre mais, mantendo a vigilância sobre todas as situações que a podem pôr em causa. E, face aos limites e falhas, o celibatário há-de abraçar a cruz e recomeçar no empenho pela fidelidade no amor. A relação com Deus, sempre mais profunda, cultivada na oração, e uma sadia comunhão fraterna ajudam muito a manter-se fiel na própria entrega de amor.
O celibato e o matrimônio são duas vocações diferentes, mas não contrapostas. Celibatários e casados, felizes na sua vocação, deverão constituir estímulo e ajuda uns aos outros, partilhando o próprio dom, reconhecendo e estimando o dos outros, numa comunhão eclesial operada pelo Espírito Santo.
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