sexta-feira, 24 de julho de 2015
Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico
alvez vocês estejam esperando
que eu diga que saberes tradicionais
são semelhantes ao
saber científico. Não: eles são
diferentes, e mais diferentes do
que se imagina. Diferentes no
sentido forte, ou seja, não apenas
por seus resultados. Às vezes se
acha que são incomensuráveis
na medida em que, por exemplo,
um permite a uma expedição da
Nasa (finalmente) tentar consertar
o telescópio Hubble em
plena órbita e o outro, não. De minha
parte, eu também acho que conhecimento
científico e conhecimento tradicional
são incomensuráveis, mas que essa incomensurabilidade
não reside primordialmente
em seus respectivos resultados.
As diferenças são muito mais profundas.
Poderíamos começar notando que, de
certa maneira, os conhecimentos tradicionais
estão para o conhecimento científico
como as religiões locais para as universais.
O conhecimento científico se afirma,
por definição, como verdade absoluta até
que outro paradigma o venha sobrepujar,
como mostrou Kuhn. Essa universalidade
do conhecimento científico não se aplica
aos saberes tradicionais – muito mais tolerantes
– que acolhem freqüentemente com
igual confiança ou ceticismo explicações
divergentes cuja validade entendem seja
puramente local. “Pode ser que, na sua
terra, as pedras não tenham vida. Aqui elas
crescem e estão, portanto, vivas.”
A pretensão de universalidade da ciência
talvez seja herdeira das idéias medievais
de uma ciência cuja missão era revelar o
plano divino. Desde o século XVII, ao se
instaurar a ciência moderna, ela foi deliberadamente
construída como una, através de
protocolos de pesquisa acordados por uma
comunidade. Um exemplo sintomático:
colocada diante do escândalo lógico que é a
coexistência de uma mecânica quântica e de
uma mecânica newtoniana, a física é levada
a uma esperança quase messiânica em uma
compatibilização futura entre ambas. Mas
essa é uma distinção conceitual. Quando
se passa da física como disciplina para as
físicas e os físicos e no que eles acreditam,
no que pensam e como agem, tudo muda.
Estes se acomodam bem com trabalhar de
manhã com física quântica, de tarde com a
newtoniana e de noite consultar um pai-desanto
ou rezar numa igreja. A Napoleão, que
lhe perguntava: “Sr. Laplace, o que é que o
senhor faz de Deus na sua teoria?”, Laplace
respondeu: “Majestade, não necessito dessa
hipótese”. Não disse que Deus não existia
nem que existia, disse que a teoria se sustentava
sem admitir Sua existência. Laplace
poderia perfeitamente acreditar em Deus.
Vários físicos famosos eram e são teístas
ou acreditam concomitantemente em vários
sistemas. Newton, como é sabido, era ao
mesmo tempo físico e alquimista. Conheço
outros exemplos, contemporâneos.
Bruno Latour chamou a atenção para
esse problema. A ciência não passa ao largo
de seus praticantes, ela se constitui por
uma série de práticas e estas certamente não
se dão em um vácuo político e social. Há
também um problema de saber se a comparação
entre saberes tradicionais e saber
científico está tratando de unidades em si
mesmas comparáveis, que tenham algum
grau de semelhança. A isso, uma resposta
genérica mas central é que sim, ambos são
formas de procurar entender e agir sobre o
mundo. E ambas são também obras abertas,
inacabadas, sempre se fazendo.
É curioso que o senso comum não as
veja assim. Para o senso comum, o conhecimento
tradicional é um tesouro no sentido
literal da palavra, um conjunto acabado
que se deve preservar, um acervo fechado
transmitido por antepassados e a que não
vem ao caso acrescentar nada. Nada mais
equivocado. Muito pelo contrário, o conhecimento
tradicional reside tanto ou mais
nos seus processos de investigação quanto
nos acervos já prontos transmitidos pelas
gerações anteriores. Processos. Modos de
fazer. Outros protocolos.
Essas semelhanças genéricas não podem
nos cegar sobre profundas diferenças na sua
definição e no seu regime. Há pelo menos
tantos regimes de conhecimento tradicional
quanto existem povos. É só por comodidade
abusiva, para melhor homogeneizá-lo, para melhor contrastá-lo ao conhecimento
científico, que podemos usar no singular
a expressão “conhecimento tradicional”.
Pois enquanto existe, por hipótese, um
regime único para o conhecimento cientí-
fico, há uma legião de regimes de saberes
tradicionais. Em cada sociedade, inclusive
na nossa, contemporânea, o que vem a ser,
só de início de conversa, “conhecimento”
ou “saber”? Em que campo se enquadra?
Quais são suas subespécies, seus ramos,
suas especialidades? E como se produz? A
quem é atribuído? Como é validado? Como
circula? Como se transmite? Que direitos
ou deveres gera? Todas essas dimensões
separam já de saída o conhecimento tradicional
e o conhecimento científico. Nada
ou quase nada ocorre no conhecimento
tradicional da mesma forma como ocorre no
conhecimento científico. Não há dúvida, no
entanto, de que o conhecimento científico é
hegemônico. Essa hegemonia manifesta-se
até na linguagem comum em que o termo
“ciência” é não-marcado, como dizem os
lingüistas. Isto é: quando se diz simplesmente
“ciência”, “ciência” tout court, está
se falando de ciência ocidental; para falar
de ciência tradicional, é necessário acrescentar
o adjetivo.
Se estamos de acordo em que saberes
tradicionais e saber científico são diferentes,
o passo seguinte é se perguntar sobre quais
são as pontes entre eles. Há várias maneiras,
novamente, de se colocar essa questão. Uma
é perguntar se as operações lógicas que
sustentam cada um deles são as mesmas
ou não e, caso sejam, de onde provêm suas
diferenças. Sobre isso, os antropólogos
Evans-Pritchard, no final dos anos 30 do
século passado, e Claude Lévi-Strauss, no
início dos anos 60, deram respostas incisivas.
Não há lógicas diferentes, mostrou
Evans-Pritchard com seu estudo sobre a bruxaria
e oráculos entre os azandes do Sudão,
o que há são premissas diferentes sobre o
que existe no mundo. Dada uma ontologia
e protocolos de verificação, o sistema é
de uma lógica impecável a nossos olhos.
Quanto a Lévi-Strauss, ele também afirma,
em seu livro O Pensamento Selvagem, de
1962, que saber tradicional e conhecimento
científico repousam ambos sobre as mesmas
operações lógicas e, mais, respondem ao
mesmo apetite de saber. De onde vêm então
as diferenças patentes nos seus resultados?
As diferenças, afirma Lévi-Strauss, provêm
dos níveis estratégicos distintos a que se
aplicam. O conhecimento tradicional opera
com unidades perceptuais, o que Goethe defendia
contra o iluminismo vitorioso. Opera
com as assim chamadas qualidades segundas,
coisas como cheiros, cores, sabores…
No conhecimento científico, em contraste,
acabaram por imperar definitivamente
unidades conceituais. A ciência moderna
hegemônica usa conceitos, a ciência tradicional
usa percepções. É a lógica do conceito
em contraste com a lógica das qualidades
sensíveis. Enquanto a primeira levou a grandes
conquistas tecnológicas e científicas, a
lógica das percepções, do sensível, também
levou, afirma Lévi-Strauss, a descobertas
e invenções notáveis e a associações cujo
fundamento ainda talvez não entendamos
completamente. Lévi-Strauss, portanto, sem
nunca negar o sucesso da ciência ocidental,
sugere que esse outro tipo de ciência, a
tradicional, seja capaz de perceber e como
que antecipar descobertas da ciência tout
court. Reflexão profunda que encontra eco
em posições de cientistas contemporâneos,
como veremos adiante.
Note-se que as reflexões que precedem
são elas próprias puramente conceituais: ao
contrastarem ciência e ciências tradicionais,
esquecem a práxis dessas atividades e fazem
abstração das dimensões institucionais,
legais, políticas, econômicas, além de boa
parte das idéias de si mesmos e de outros que
estão no imaginário das pessoas. Ora, ciência,
já se viu, não se faz em um vácuo.
Voltando às pontes: o que as ciências
tradicionais podem aportar à ciência? A
questão, utilitarista, é antiga e muito controvertida.
Na farmacologia, é um sub-ramo
de uma controvérsia maior, a que opõe a
pesquisa baseada em produtos existentes
na natureza àquela que parte de combina-
ções sintéticas. Com efeito, há um ramo
forte da farmacologia que nega qualquelaboratório (high through put screening)
foram exponencialmente acelerados. É
verdade, admitem os desse ramo, que os
produtos naturais são fruto de adaptações
que já se provaram viáveis e eficientes, mas
a possibilidade de simplesmente testar, em
tempo curtíssimo, a atividade de milhões
de combinações inventadas em laboratório
teria reduzido se não anulado a vantagem
comparativa de produtos naturais.
Passando-se agora para produtos naturais
conhecidos da ciência tradicional,
verificou-se que a diferença de rendimento
entre etnomedicina e produtos naturais em
geral está na ordem de centenas, ou seja, no
mínimo, se se partir da etnomedicina, ganhase
um rendimento de várias centenas de vezes
mais acertos em média, dependendo do tipo
de afecção. Isso partindo-se de produtos naturais
em geral, não de moléculas sintéticas. Se
se partir de moléculas sintéticas, a diferença
aumenta exponencialmente. Mas, argumenta
a grande indústria, essa diferença de rendimento
entre produtos usados na etnomedicina
e moléculas sintéticas tornou-se negligível
diante da velocidade dos métodos atuais de
testes. Há, portanto, um argumento tecnológico
aqui presente. No entanto, há fortes
indícios – passados sob silêncio porque se
reverencia a tecnologia e a ciência – de que
problemas políticos, jurídicos e econômicos
estão em ação aqui.
Mesmo de farmacólogos brasileiros que
partem de substâncias existentes na natureza
ouvem-se juízos extraordinariamente
arrogantes. Geralmente argumentam que os
conhecimentos tradicionais em nada contribuem
para o “progresso da ciência” porque
a atividade que eles apontam, os seus usos
tradicionais, não coincide necessariamente
com a atividade que a ciência descobre. Há
muitos contra-exemplos dessa assertiva e
mencionarei alguns, embora isso nem me
pareça ser uma questão central. Artigos
científicos recentes sobre plantas amazô-
nicas e do cerrado, por exemplo, mostram
que o sangue de drago (Croton lechleri),
usado por índios amazônicos no Peru como
cicatrizante, contém um alcalóide, taspina,
precisamente com esse efeito; várias plantas
medicinais usadas como antidiarréicos na
medicina tradicional brasileira têm efeito no
combate aos rotavírus que causam diarréia
e são o maior fator de mortalidade infantil;
o barbatimão realmente contém moléculas
com efeitos cicatrizantes, etc. Portanto,
dizem esses farmacólogos refratários aos
conhecimentos tradicionais, mesmo que
os conhecimentos tradicionais tenham
mostrado a existência de princípios ativos,
eles raramente são úteis para os mesmos fins
para que foram tradicionalmente usados. A
atividade tradicional não é a que acaba sendo
a “verdadeira” ou a mais importante.
A isso outros farmacólogos retrucam
que, mesmo que assim fosse, a existência
de princípios ativos em si mesma é uma
contribuição importante a ser valorizada. O
exemplo clássico disso é uma planta nativa
de Madagascar e que chamamos no Brasil
de “beijo”. Usada em diferentes partes do
mundo como medicina tradicional, em 1950
passou a ser objeto de pesquisa científica.
Por um lado, confirmaram-se as propriedades
antidiabéticas que eram conhecidas,
por exemplo, na Jamaica e na Europa. Por
outro, descobriram-se várias substâncias
com propriedades anticancerígenas que
desembocaram em drogas para tratar leucemia
infantil e mal de Hodgkins. Como o
câncer não constava entre as aplicações do
beijo na medicina tradicional, farmacólogos
em geral não reconheceram a dívida que
tinham em relação à medicina tradicional.
Outra forma ainda de diminuir a ciência
tradicional é dizer que, contrariamente
à ciência tout court, ela não procede por
invenção, somente por descoberta e até,
quem sabe, por imitação de outros primatas,
macacos que usam plantas medicinais.
Bastaria lembrar o ayahuasca, uma mistura
de duas plantas, em que uma só tem efeito
por via oral na presença da outra, para
desmontar esse argumento. Há vários outros
argumentos e estudos que sustentam
a utilidade e valor econômico da ciência
tradicional (por exemplo, o fato de que o
uso tradicional prolongado de uma substância
dá indicações quanto à sua toxicidade)
mas, como veremos adiante, o x da questão
é outro. Mais interessante é a posição de
etnofarmacólogos como a da professora r
vantagem em se partir de produtos naturais,
sobretudo desde que métodos de testes emgaúcha Elaine Elizabetsky (2004), que vê
na ciência tradicional um potencial de renovação
dos próprios paradigmas de ação
das substâncias ativas. De fato, escreve ela,
“a compreensão dos conceitos de medicina
tradicional em geral, e de suas práticas mé-
dicas em particular, pode ser útil na gênese de
verdadeira inovação nos paradigmas de uso
e desenvolvimento de drogas psicoativas”.
Essa postura é particularmente importante:
não se trata aqui, como muitos cientistas
condescendentemente pensam, de simples
validação de resultados tradicionais pela
ciência contemporânea, mas do reconhecimento
de que os paradigmas e práticas de
ciências tradicionais são fontes potenciais de
inovação da nossa ciência. Um dos corolários
dessa postura é que as ciências tradicionais
devem continuar funcionando e pesquisando.
Não se encerra seu programa científico quando
a ciência triunfante – a nossa – recolhe
e eventualmente valida o que elas afirmam.
Não cabe a esta última dizer: “daqui para a
frente, podem deixar conosco”.
Um exemplo em outra área é elucidativo.
Costuma-se chamar de saber ecológico
tradicional ao conhecimento que populações
locais têm de cada detalhe do seu entorno, do
ciclo anual, das espécies animais e vegetais,
dos solos, etc. A relevância desse saber em
geral não é disputado. Mais controverso é o
problema da validade dos modelos locais. O
que tenho visto é biólogos – mesmo aqueles
que se dispõem a ouvi-los – “ensinarem” a
seringueiros e índios qual é o modelo científico.
Vejam o modelo de sustentabilidade
da caça (estou me baseando em Mauro
Almeida, Glenn Shepard Jr. e Rossano Ramos
e simplificando o exemplo): no início
da década de 90, dois biólogos importantes,
Redford e Robinson, produziram um
modelo largamente aceito de “produção
sustentável” que previa quantos indivíduos
de cada espécie poderiam ser caçados de
forma sustentável baseado nas suas taxas de
reprodução. Os seringueiros do Alto Juruá
tinham um modelo diferente: a quem lhes
afirmava que estavam caçando acima do
sustentável (dentro do modelo Redford e
Robinson), eles diziam que não, que o nível
da caça dependia da existência de áreas de
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