terça-feira, 6 de outubro de 2015
REZADEIRA
Em virtude do grupo das rezadeiras1
desempenharem um trabalho importante na área de
cura na sociedade e ainda, por percebermos a ausência de estudos nesta área na cidade
de Frei Paulo/SE, temos como objetivo principal neste artigo analisar e descrever
antropologicamente as práticas de curas exercidas por essas mulheres nesta cidade,
tendo como intuito trazer à tona como esse grupo religioso, que faz parte do catolicismo
popular21
, tece suas experiências consideradas mágicas dentro da sociedade e, ao
mesmo tempo, consegue ser aceitas ou legitimadas, em um ambiente disputado
religiosamente por tantos agentes do sagrado. Para isso, realizamos em campo, o
registro da oralidade das rezadeiras, nos apoiamos nos pressupostos metodológicos de
autores clássicos e contemporâneos da antropologia. Essas práticas neste marco inicial
são realizadas em sua maioria por mulheres idosas que receberam um saber transmitido
oralmente por mães, avós, tias ou vizinhas.
Palavras Chave: Religiosidade; Rezadeiras; Curas; Tradição.
1 Com base nos estudos de autores nordestinos como Santos (2007), Teotonio (2010) entre outros, as
pessoas que usam essa prática são denominadas rezadeiras. Já em estudos desenvolvidos por autores das
demais regiões, como é o caso Oliveira (1985), Quintana (1999) e demais autores, essas pessoas recebem
o nome de benzedeiras. No entanto, verifica-se que se trata da mesma categoria de análise para se explicar
o mesmo fenômeno religioso.
2 É um segmento do catolicismo que se caracteriza por uma experiência religiosa pautada na experiência
laica e tem como fundamentação, de acordo com Zaluar (1980) e Steil (2001), a crença em milagres, nas
promessas e nas imagens dos santos.
2
1-INTRODUÇÃO
A presente pesquisa é fruto da experiência de campo junto às rezadeiras da
cidade de Frei Paulo, situada na Região Centro-Oeste de Sergipe. Esse município se
caracteriza religiosamente pela forte presença de um catolicismo popular que se
manifesta nas procissões ao padroeiro São Paulo, bem como na procissão dedicada ao
Senhor Morto na Sexta-Feira da Paixão. É importante destacar que na festa dedicada ao
Senhor Morto muitos fiéis costumam sair na procissão de pés descalço, vestidos de roxo
e preto fazendo penitencia por uma graça alcançada.
Para além desta face mais pública do catolicismo que se manifesta nas
procissões, há outra dimensão importante a se destacar, trata-se da atuação das
rezadeiras, que é um grupo que atende às necessidades das pessoas através de ritos de
curas que se realizam num ambiente privado, nas suas próprias casas.
Adentrando no interior dessas práticas, percebemos que as mesmas se
encontram enraizadas no imaginário popular e, segundo observação preliminar,
costumam atender pessoas tanto das classes populares, como das classes médias, pois,
em estudos de campo, nota-se em casas de rezadeiras a presença de professores, donasde-casa,
estudantes, comerciantes, crianças, etc.
Essas mulheres costumam benzer usando ramos e uma fé calcada na crença,
diante das imagens como entidades religiosas que emitem energias espirituais para que
sejam efetivadas as curas nas pessoas que buscam tais serviços. A maioria dessas
rezadeiras atua nos locais periféricos, no entanto, algumas praticam seus serviços no
centro da cidade. Verifica-se também que essas práticas se encontram disseminadas
principalmente nos povoados do município de Frei Paulo: Serra Redonda, Mocambo,
entre outros.
Em tempos passados, tal prática tinha maior destaque junto à população local,
mas com o aparecimento de outros agentes de saúde e o aumento da atuação da Igreja
Católica e dos Evangélicos, a procura diminuiu. Isso porque, antes, segundo Priore
(2000), elas curavam mazelas, faziam partos e davam conselhos religiosos.
Para que essa pesquisa tivesse um melhor entendimento, escolhemos trabalhar
com três categorias de análises que estão presentes nas práticas de curas das rezadeiras:
o sagrado, o profano e a eficácia simbólica. No entanto, para ser alcançado esse intento,
metodologicamente, nos baseamos, sobretudo, em autores clássicos da antropologia
3
como Émle Durkheim (2003), Lévi-Strauss (1996), Peter Berger (2003), entre outros,
bem como da literatura de autores nordestinos e de outras regiões do país.
Na primeira parte do artigo, ressaltamos as práticas de curas mágicas da
benzenção em Frei Paulo, descrevendo assim as principais doenças e seus
procedimentos; na segunda parte, foi analisada a eficácia ou a legitimação dessas curas,
bem como o aprendizado e o reconhecimento social que elas possuem na sociedade; e
na terceira, analisamos o ritual de cura feito pelas rezadeiras.
2. PRÁTICAS DE CURAS, DOENÇAS E PROCEDIMENTOS
As práticas de curas realizadas por mulheres conhecidas historicamente por
rezadeiras têm seus primórdios na nossa sociedade, segundo Montero (1985), desde o
período da colonização. Nesta época, essa prática era hegemônica devido ao pouco
número de médicos e padres, o que possibilitou que as rezadeiras curassem e
restabelecessem a saúde das pessoas que as procuravam.
Essas mulheres se destacaram na sociedade principalmente, por falarem em
uma linguagem acessível às pessoas que as procuram e por curarem doenças que têm
um amplo conhecimento e aceitação da população. Os principais tipos de doenças que
as rezadeiras em Frei Paulo costumam curar são: quebranto, mau-olhado, sol e sereno,
erisipela, vermelha, cobreiro, dona-do-corpo, entre outras.
As doenças conhecidas por quebranto, que é um tipo de mal olhado,
ocasionadas por um olhar carinhoso e ao mesmo tempo de inveja, atingem, segundo
Queiroz (1980), principalmente as crianças pequenas, desde os primeiros meses de
nascida até os sete anos de idade. O principal sintoma é a diarreia constante, tendo-se
em vista que o mal se aloja nas “tripas” da criança.
Quanto ao mau-olhado, este recai, principalmente, nos jovens e adultos, mas
também afeta animais e plantas. Caracteriza-se por um olhar impregnado de maus
sentimentos, como inveja, ódio e a cobiça e só se retira através de orações. Para a cura
do quebranto e do mau-olhado, as rezadeiras costumam rezar com vassourinha, pião
roxo, etc., no entanto, essas plantas tem que serem usadas antes de murcharem e
secarem para não perderem a sua eficácia.
4
A doença sol e sereno trata-se de dores de cabeças constantes, causadas pelo
excesso de sol ou pelo sereno da noite. Para curar esse mal, as rezadeiras utilizam uma
garrafa com água virada em cima de um pano branco, dobrado sobre a cabeça do
enfermo. É importante acrescentar que, no momento em que se realiza as orações,
aparecem algumas bolhas na garrafa, as quais simbolizam, segundo as rezadeiras, que a
pessoa está com o sintoma de sol e sereno.
Quanto às doenças que se manifestam na pele, como é o caso da erisipela,
vermelha e cobreiro, estas deixam a pele avermelhada e inflamada, e para curar, as
mulheres rezam com azeite, cebola vermelha, ramos verdes e orações.
Já a doença conhecida popularmente como dona-do-corpo é uma inflamação
uterina ou uma cólica menstrual. Esta doença, na visão das rezadeiras, quando se
manifesta, toma conta do corpo inteiro da mulher. Segundo as rezadeiras, doem os
braços, a coluna, o fígado, bem como outras partes do corpo. Para efetivar a cura dessa
doença, algumas rezadeiras costumam por o pé direito sobre a região abdominal abaixo
do umbigo e, em seguida, reza o credo, depois afasta a perna da mesma, e diz a seguinte
oração: “Com o poder de Deus e da Virgem Maria, valei-me a Virgem da Conceição e a
Virgem da Conceição, valei-me” (Rezadeira de Frei Paulo).
Outra doença que é muito procurada pelas pessoas é o vento mau ou mal de
congestão. Esses males, quando passa nas pessoas, paralisa uma parte do corpo. Essa
doença é conhecida na medicina acadêmica como derrame. Para curar essa doença as
rezadeiras costumam utilizarem-se além das orações, chás de vassourinha, nozmoscada,
pixilin e crista-de-galo, bem como a utilização do tomate, cebola e azeite, nas
partes do corpo afetadas.
Verificamos também que ao lado do vento mau, tem outra doença fundamental
para ser analisada, trata-se da espinhela caída, que é uma enfermidade detectada pela
desproporção anatômica entre o antebraço e o tórax. Essa doença deixa a pessoa com
problema de locomoção, portanto, para curá-la as rezadeiras costumam usar um cordão,
no qual é medido das pontas dos dedos aos cotovelos.
Além das doenças que foram acima citadas, as quais são transmitidas pelo
contato social entre as pessoas ou por elementos naturais, como o sol, o vento, a lua,
etc., há outras doenças que são ocasionadas por entidades sobrenaturais, como um
encosto de uma pessoa morta, ou até mesmo maus fluidos. Para curar esses males,
algumas rezadeiras utilizam-se de rezas e de elementos naturais como sal grosso, arruda,
alevanta cadáver e alho roxo. Vale ressaltar que as rezadeiras que praticam tais
5
procedimentos tem um envolvimento com as religiosidades afro-brasileiras,
principalmente da Umbanda.
Um fato importante a ser destacado é que as curas não acontecessem somente
na presença da pessoa, estas podem ser realizadas a distância3
. Segundo as rezadeiras
para que a reza aconteça é necessário que as pessoas que se encontram distantes tenham
fé na oração que está sendo feita. Para se rezar em pessoas que se encontram distantes,
as rezadeiras costumam rezar a água e enviar para o doente beber, rezar em uma foto, na
roupa do doente, etc. No entanto, para que essa cura se efetive, segundo elas, é
necessário que haja a fé tanto do que reza, quanto daquele que recebe a oração.
Algo peculiar nessa modalidade de oração é que em alguns casos, as rezadeiras
costumam subir numa cadeira para rezar, por exemplo, numa pessoa que reside em São
Paulo. Elas relatam que faz uso de mecanismos, para que as rezas não fiquem fracas, ou
percam a sua eficácia ao passar por um provável rio que fique entre a rezadeira e a
pessoa benzida.
3. A EFICÁCIA NOS SERVIÇOS DE CURAS DAS REZADEIRAS EM FREI
PAULO
Essas senhoras, enquanto portadoras de bens sagrados, têm suas práticas
reconhecidas dentro de um horizonte do catolicismo popular, a partir da crença social de
pessoas que partilham o mesmo horizonte religioso, no qual lhes depositam confiança
em seus serviços, pois identificam as suas ações como sobrenaturais e lhes delegam um
poder que as faz sair do anonimato para o reconhecimento da sociedade.
Nesse sentido, para que as rezadeiras tenham reconhecimento social, é
necessário, com base nos estudo de Lévi-Strauss (1996), que tais pessoas se aceite como
portadora de um dom, que haja a crença e a fé do doente que deseja ser curado, e que a
própria comunidade, em que atuam as rezadeiras, aceite-as como pessoas capazes de
curar.
________________
3 A oração a distância realizada pelas rezadeiras é um recurso utilizado pelo cristianismo desde a época
de Jesus. Uma cena que ilustra esse tipo de oração é a do encontro do centurião romano que pede que
Jesus curasse um servo que se encontrava doente em sua casa. O relato diz: “Senhor, não te incomodes,
pois não sou digno que entres em minha casa. Por isso, nem fui pessoalmente ao teu encontro. Mas dize
uma palavra, e meu servo ficará curado” (Lc 7, 6-7).
6
Essa ótica de pensamento foi reforçada nos estudos de Oliveira (1985, p. 39),
na cidade de Campinas, quando afirma que:
Não basta apenas que a própria benzedeira reconheça a existência de um dom
na sua vida. É necessário também que a própria comunidade onde ela mora,
onde atuam, seus vizinhos, sua família, as pessoas que lhe são chegadas
partilhem com ela desse momento tão singular. É necessário que essas
pessoas queiram que tal dom exista, que a elejam como uma pessoa especial,
capacitada, dotada de poderes sobrenaturais.
Vale destacar que o reconhecimento social obtido por parte das rezadeiras em
Frei Paulo não vem dos saberes hegemônico como os dos padres ou médicos, mas do
ensinamento de pessoas simples da comunidade. Esse aprendizado ocorre socialmente,
na grande maioria, em um ambiente familiar, através dos ensinamentos de uma avó, da
mãe, das tias, de uma irmã mais velha, ou até mesmo por uma anciã conhecida na esfera
da benzenção.
Nesse aprendizado são transmitidas algumas orações, os tipos de doenças, os
sintomas e os principais procedimentos de cura. Além disso, são ensinados também os
elementos naturais que fazem parte do ritual como a água, os ramos, o sal, entre outros.
Outra parte fundamental nos ensinamentos dessas práticas nesta cidade trata-se
da autonomia da pessoa enquanto rezadeira. Este é um ponto chave nas vidas destas,
pois não basta que ela reconheça que tem um dom de curar, é necessário que tenha o
reconhecimento da comunidade a que pertence, vizinhos, familiares e outras pessoas da
comunidade, e às vezes até o reconhecimento de pessoas de outras localidades,
considerando-as portadoras de um dom.
Com o reconhecimento social obtido por parte da comunidade, as rezadeiras
em Frei Paulo costumam rezarem quase todos os dias, exceto a noite e aos domingos,
tendo-se em vista, segundo elas, que durante esses períodos a reza “fica fraca”, isto é,
não tem o efeito almejado. Mesmo assim, algumas rezadeiras, dizem que quando o caso
é de extrema necessidade, reza nas pessoas independe do dia e da hora. Constatamos
que um tipo de doença foge à regra no tocante aos horários estabelecidos para rezar, por
exemplo, a espinhela caída, segundo observações em campo são executadas nos dias de
segunda, quarta e sexta-feira, sempre no horário da parte da manhã, de preferência antes
do nascer do sol.
7
As práticas de curas das rezadeiras da cidade de Frei Paulo, ao serem
transmitidas num ambiente comunitário e familiar, conforme observações preliminares
vem corroborar com as ideias de Lévi-Strauss (1996), ao afirmar que as práticas
mágicas tem uma eficácia simbólica por ser reproduzida e construída pela sociedade que
as legitima e ao mesmo tempo propaga e difunde. Nesse sentido, verificamos em Frei
Paulo que para uma rezadeira receber esse título, terá que além de possuir um dom de
cura, irá necessitar também ter uma linguagem coerente que se articule com o tipo de
doença, e que, portanto, ao benzer numa pessoa a doença seja diagnosticada de forma
palpável e que o mal seja extirpado ou retirado. Sendo assim, se ocorrer sucesso em
suas rezas, a rezadeira será vista como qualificada e terá a sua divulgação na
comunidade como legitima e, portanto sua oração terá força e poder.
Seguindo esse princípio de que a eficácia simbólica reside numa sustentação
coletiva, Mauss (1979, p.37) atribui que:
O característico da magia e de seu agente, seja o mágico, o xamã, ou o pajé, é
possuir uma força cuja natureza não é individual como parece a princípio,
mas social, ou melhor, é uma representação coletiva que se atualiza no agente
individual.
Um detalhe observado por Quintana (1999, p. 49), a respeito dessa discussão é
que:
A eficácia da terapêutica da benzedura que está ali em pauta; é também uma
forma de conceber o corpo e a doença e, mais do que isso, é o próprio
pensamento do grupo que está em jogo, uma vez que nessa teia de
significados não existe nada que esteja solto, cada fio está amarrado ao
conjunto e, ao mesmo tempo em que o sustenta, é sustentado por ele.
De acordo com os autores citados, percebemos que as práticas de cura das
rezadeiras freipaulistanas se inserem no campo da eficácia simbólica por conterem os
seguintes princípios: em primeiro lugar, por ser uma ação religiosa pautada nos poderes
sobrenaturais; em segundo lugar, por ter uma aceitação dentro da sociedade; e, em
último, por utilizarem uma linguagem aceita como legitima e eficaz socialmente.Sendo assim, as rezadeiras buscam o seu poder mágico no mundo das forças
sobrenaturais a partir dos ensinamentos transmitidos por pessoas anciãs que são dotadas
de uma experiência carismática4
. No entanto, esses poderes só possuem legitimidade a
partir das crenças de pessoas que partilham de tais serviços, com o intuito de obter
curas, sejam elas físicas, espirituais e ou psicológicas. Nesse sentido, para que essas
práticas tenham divulgação e aceitação, é preciso que seja articulada de acordo com as
noções de saúde e doença que se encontra enraizadas no imaginário social dos benzidos.
Pois, vale salientar que as pessoas ao sofrerem de alguma doença como mau-olhado,
quebranto, sol e sereno, cobreiro e outros males, já sabem de antemão a quem pedir
proteção e buscar auxílio.
4. O RITUAL DE CURA DAS REZADEIRAS
Em relação aos rituais em que se realizam as curas, verifica-se que são
exercidos no próprio recinto da casa, inclusive no próprio quintal. No entanto, quando o
mal é espiritual, isto é, no caso de um encosto e/ou um feitiço, as rezadeiras costumam
destinar um local específico para exercer a cura.
Nos locais que são exercidos as curas, por parte dessas mulheres do sagrado,
encontramos uma grande quantidade de imagens de santos da Igreja Católica. Entre
essas se encontra as imagens de Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia, São Paulo,
São Pedro, Santa Barbara, São Cosme e São Damião, entre outros. Inclusive, muitas
das imagens fazem parte do universo das religiosidades afro-brasileiras e do
catolicismo, no entanto, recebendo variações nos nomes.
Esse fato explica-se em virtude de não haver no interior das crenças das
rezadeiras um saber que não exclui as demais experiências religiosas, mas que há
circularidade de saberes e de experiências religiosas no interior dessa prática.
Geralmente ao entrarmos num local sagrado como de uma Igreja Católica ou
Evangélica, percebemos que há um espaço separado e qualificado para se exercer um
ritual específico como o caso de uma missa, ou de um culto evangélico, havendo assim,
___________________
4 A noção de carisma é definida por Weber como “... uma certa qualidade de uma personalidade
individual, e em virtude da qual se separa dos homens e é tratada como se fosse dotada de qualidades ou
poderes sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, especificamente excepcionais” (In; ÓDEA, 1969,
p.37).
9
uma separação nítida entre a esfera do sagrado e do profano. No entanto, ao olharmos
para um ritual da benzenção, verificamos que é uma prática religiosa que ocorre na
maior parte do tempo, acontecimento tidos como profanos, como por exemplo, comer,
beber, fumar, assistir televisão, etc. Mas em alguns momentos do dia, esse ritual se
torna especial, quando é invadido pela dimensão do sagrado. Essa invasão do sagrado é
feita no momento em que as rezadeiras utilizam um espaço da sua casa para benzer
alguém que lhe procura.
Autores como Durkheim (2000) e Berger (2003), costumam vê o sagrado e o
profano como duas categorias heterogêneas, no qual um fiel só passa, por exemplo, a
esfera do sagrado se sair do mundo profano. Nesse sentido, um espaço sagrado é
considerado como especial e separado; já o profano é a esfera das coisas cotidianas,
separado por interdições e tabus.
Embora, esses autores apontam essa heterogeneidade num espaço religioso,
verificamos que as rezadeiras fogem as regras ao exercer suas práticas de curas,
principalmente porque o próprio espaço é um local doméstico e profano, bem como, por
não serem pessoas separadas através de uma instituição que deva exercer normas e um
ritual específico. Essa liberdade lhes possibilita essa relatividade no tocante ao
entendimento das coisas sagradas e profanas.
O ritual em que é realizado a benzenção segundo Santos (2002) e Quintana
(1999) se divide em três partes: o diálogo inicial, a benção e o diálogo final. A cura tem
início com a chegada das pessoas que as solicitam uma determinada intervenção a
respeito de algum mau que as incomoda. Nesse momento, geralmente se relata as
queixas e os sintomas da doença. Inclusive nessa parte do diálogo, as rezadeiras citam
casos de curas importante na vida de pessoas conhecidas na comunidade, às vezes um
político ou comerciante.
Já a benção é o momento chave do ritual, após ouvir os doentes e expor um
marketing pessoal, procura expulsar o mal através de orações, utilizando-se de
elementos naturais, como os ramos. É um momento em que há exorcização do mal,
onde esse é enviado por elas às águas correntes de rios e mar, que são considerados
elementos sagrados. Durante essa fase, as rezadeiras ficam em pé e os benzidos
permanecem sentados, sem encruzarem as pernas e de mãos abertas recendo as orações.
10
Após a benção, é comum as rezadeiras conversarem com os clientes5
, dandolhes
explicações referentes às possíveis doenças, para isso procuram mostrar provas
concretas de que esses estavam com um determinado problema de saúde. Como prova
concreta, por exemplo, mostra os galhos que foram murchos após rezar de mau-olhado
ou quebranto. Ou senão, mostram a água borbulhando quando reza de sol e sereno,
enfatizando assim que a dor-de-cabeça saiu e ficou na água.
Durante o ritual percebemos uma grande riqueza simbólica, que se mostra
visível através das orações, da numerologia três, da água, do sol, da lua, etc. De acordo
com observações feitas em Frei Paulo, o uso do número três é algo constante nos rituais
de curas exercidos pelas rezadeiras. Por exemplo, reza-se três vezes numa pessoa, três
vezes deve se rezar o Padre Nosso e a Ave-Maria. Biblicamente essa simbologia tem
um significado importante, pois três são as pessoas da santíssima Trindade: Pai, Filho e
Espírito Santo, três dias Jesus ficou morto antes de ressuscitar.
A referência simbólica ao número três, ainda tem várias alusões bíblicas
importantes, por exemplo, no antigo testamento, três foram os filhos de Adão e Eva:
Caim, Abel e Set (Gn 4, 1-26); três dias, Jonas esteve na barriga de uma baleia (Jn 2, 1-
2); três foram os jovens que foram lançado na fornalha por Nabucodonosor; Sidrac,
Misac e Abdênago (Dn 3, 24-26) e três vezes Balaão castigou a sua jumenta (Num 22,
23-28). Já no Novo Testamento, encontramos as seguintes alusões; três foram os reis
magos que ofereceram presentes ao menino Jesus (Mt 2, 1-11); três vezes Jesus foi
tentado pelo Demônio (Mt 4, 1-4) e três vezes Pedro negou Jesus.
Em seus estudos, Oliveira (1985, P.54) relata que esse numeral é bastante
frequente e com base em estudos realizados em Campinas, São Paulo, Oliveira informa
a partir de dados orais que quando Jesus andava no mundo, três coisas ele levantou:
arca, vento e espinhela caída. Essas nomenclaturas fazem referência principalmente aos
males do vento mau, bem como de espinhela caída.
Dentre todos os elementos encontrados nos rituais da benzenção, a oração é a
modalidade mais importante, tendo-se em vista, na visão de Santos (2002), que essa se
constitui num momento indispensável no ritual dessas curas, já que é através dela que as
rezadeiras invocam as forças sobrenaturais pedindo proteção e restabelecimento da
saúde daqueles que as procuram. Nesse sentido, a oração, para essas mulheres,
representa um elo de intermediação entre os homens e Deus.
__________________
5 Os clientes são pessoas de acordo com Brandão (1986), que procuram a um só tempo os vários serviços
religiosos de maneira esporádica e ditada por necessidades especiais do momento em que se encontram.
11
As orações recitadas pelas rezadeiras geralmente são feitas em formas de
jaculatórias, isto é pequenas invocações dedicadas a um santo. Frequentemente esse tipo
de orações foi aprendida oralmente pelas pessoas mais velhas, bem como através dos
ensinamentos dos frades em períodos de santas missões populares. As principais
orações em forma de jaculatórias são: o Padre Nosso, Ave-Maria, Salve Rainha e Glória
ao Pai.
Para executa-las, não precisa recorrer a manuais teológicos, nem tampouco ao
fundamento bíblico, mas ao legado da tradição oral e a fé nos santos, como protetores e
guias espirituais. Neste sentido, ao benzer as pessoas de forma inaudível, ou seja, que
quase não se escuta o que estão dizendo, elas executa o papel de intercessoras ou de
intermediarias entre Deus e os benzidos.
Para Santos (2010, p.86), quando elas suplicam a Deus, ocorre uma circulação
triangular de energias simbólicas, no sentido de que:
De um lado está o rezado, atormentado por algum mal, seja de natureza
física, seja espiritual. No ângulo oposto está o rezador, portador dos
instrumentos de cura (rezas, elementos naturais, chás e fé). Entre eles e ao
mesmo tempo acima dos mesmos, está o elemento natural, sacralizado e
representando as forças da Santíssima Trindade.
Um aspecto fundamental a ser enfocado ainda no ritual é a gratuidades7
nesses
serviços de curas, já que segundo as rezadeiras a oração é um dom de Deus e deve ser
feita de forma gratuita. No entanto, se um dos clientes lhes oferecer algum agrado, um
objeto de copa e cozinha, um perfume, um sabonete, entre outros presentes, elas
recebem como forma de agradecimento.
Esse tipo de gratuidade6
observado nas práticas da benzenção pode ser
comparado com os estudos desenvolvidos por Mauss (2003) sobre a “Dádiva”, quando
enfatiza que há uma mistura entre almas e coisas, entre riqueza material e espiritual.
Nesse sentido, essas observações feitas pelo autor se encontram presentes na gratuidade
dos serviços de curas das rezadeiras, pois se encontram associados um valor ético e
moral, acrescido de valores espirituais que estão acimas dos valores mercantis.
____________________
6 Esse aspecto encontrado nos serviços de curas desenvolvidos pelas rezadeiras, tem uma fundamentação
evangélica, inclusive o próprio Jesus em suas instruções missionários aos apóstolos disse: “No vosso
caminho, proclamai: O Reino dos Céus está próximo. Curai doentes, ressuscitai os mortos, purificai
leprosos, expulsai demônios. De graças recebestes, de graça deveis dar!” (Mt. 10, 7-8).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário